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VIAJAR NO SUDÃO | Um desabafo sobre: “Um dos países mais perigosos do mundo”

Para quem acompanha viajantes que se “perdem” por estes países muçulmanos do Médio Oriente, certamente que no mínimo já terá percebido que muitas das imagens e ideias criadas acerca destes povos, e que  nos chegam todos os dias através dos meios de comunicação social, não corresponde à realidade no terreno.

Não me esqueço no entanto da parte feminina, essa sim, em alguns destes países poderá ser confrontada com situações a que não estarão habituadas –sobretudo se viajarem sozinhas- não obstante, já conheci mulheres que o fizeram pelo Irão, JordâniaOmã e no próprio Sudão, que -tendo noção das diferenças para a cultura ocidental- tiveram experiências fantásticas.

Os meus primeiros amigos Sudaneses…ainda antes de chegar ao país

Talvez devido ao facto de nos últimos anos ter viajado de forma consecutiva para estas bandas, sinta uma enorme vontade em querer ajudar a desconstruir estas ideias. Admito. Apesar das minhas viagens ao IRÃO, OMÃ e à JORDÂNIA terem sido todas elas a nível de hospitalidade semelhantes, tenho de confessar que quando chegou a vez do SUDÃO este suplantou os “adversários” e nem sequer foi preciso ir a prolongamento.

Nunca me senti tão acompanhado viajando sozinho. É certo que fiz questão de “deixar-me levar”, coisa que pode ser difícil de fazer a quem não estará habituado a lidar com estes povos, o que é perfeitamente compreensível.

Desde os procedimentos na fronteira, passando pelos transportes. Bastava sair à rua. Bastava um olhar mais demorado. “De onde és?”, “Porque estás no Sudão?”, “O que achas do nosso país?”

Tudo isto numa língua estranha de inglês-árabe “sudanês”… Gente que pouco mais de 40€ de salário mensal a serem generosos comigo, a pagarem-me café, refeições e até quem  fizesse questão de me oferecer casa.

 Sempre um olhar doce e ao mesmo tempo de admiração ao verem um forasteiro por aquelas bandas. Verdade que o Sudão recebe alguns turistas, mas estes são remetidos a percursos quase obrigatórios, standarizados e previamente definidos por uma ou duas agências locais estrangeiras. Como estava por minha conta, tive a sorte e sobretudo o privilégio de conhecer lugares por onde raramente alguém se perde.

Aguardando o barco para atravessar o Nilo

Perguntam-me muitas vezes como não tenho medo de abordar assim as pessoas e de me deixar abordar. Eu respondo sempre –um pouco em tom de brincadeira- que o que na maior parte das vezes o que acontece é que se “estiver um pouco menos lavado, tiver a barba e cabelo comprido, quem tem medo são eles de mim”.

A partir de determinado momento, o meu passatempo preferido no país foi sentar-me nos cafés, ou nas pequenas bancas de chá e esperar para ver o que acontecia. Dei mesmo por mim em busca dessa interacção a que praticamente sempre fui correspondido de forma positiva.

Um dos pontos altos foi um simpático merceeiro que me emprestou a sua bicicleta para um inesperado passeio de bicicleta em KassalaMas também não posso esquecer os dias passados nas aldeias núbias do norte, encontro com uma inesperada história de amor e a minha noite passada sob um céu estrelado junto às pirâmides de Meroe. 

Muito disto surgiu em meros encontros, nada combinado. O “perigoso Sudão” que tantos minutos de sono tirou à minha mãe recebeu-me com um abraço e soube tomar conta de mim.

Sudanês que me despertou a atenção apenas pela simplicidade e serenidade do seu olhar.

Sim o Sudão não é um paraíso, tem problemas e graves problemas, a todos os níveis que uma sociedade pode ter. Ainda assim o seu povo revelou-se uma autêntica surpresa para mim e que ficou no meu coração. O resto é política e jogo de bastidores.

O impacto desta viagem foi tão forte  que não descarto a hipótese de voltar. Uma das características do Sudão é que além de ter muito daquilo que é “Médio Oriente” tem também já um “cheirinho” à África profunda. Este mix é “explosivo” e cativou-me. Acima de tudo estou curioso para ver mais mundo, ter mais experiências, receber tudo o que o mundo tiver para me dar, o que for bom e menos bom, e pensar depois se sentirei o mesmo apelo por este “perigoso país”.

BOAS VIAGENS!

Francisco

2 Comments

  • Reply

    Rui Quinta

    8 Outubro, 2018

    Sobre estes países tão diferentes do que estamos habituados no Centro e Sul da Europa, costumo dizer que na verdade a maioria das pessoas apenas querem viver. E a generalidade das pessoas quer ajudar simplesmente porque são boas. Ainda que seja difícil de entender para quem tem tantos preconceitos com a diferença.

    Boas viagens!

    • Reply

      projecto100rota

      9 Outubro, 2018

      Claro que sim, é essa percepção que eu tenho. Aliás seria a mesma que qualquer um “desses com preconceitos” pensaria se o colocássemos num lugar desses no meio daquele povo, gostaria de ver. Era uma grande lição.

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