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Viagem ao Sudão | Retratos do “meu” Sudão, a minha homenagem a este generoso povo | Sudão

Jovens com quem partilhei um chá em Kassala, Sudão

Já visitei o Sudão duas vezes. Porquê o Sudão? Primeiro: porque não? e segundo, porque descobri que vive aqui um povo humilde, generoso, pobre, sério e lutador. Sinto me em dívida para com esta gente por tudo o que me deram ao longo das minhas estadias no país, e como parte do pagamento decidi escrever este artigo. Quero gritar bem alto, O POVO DO SUDÃO É LINDO!

Vocês já sabem que gosto da história e contemplar os monumentos feitos pelo homem ou as paisagens desenhadas pela nossa mãe natureza.

Mas e as pessoas? O povo ? Sem esses “actores” neste filme era quase impossível para mim ter histórias ou momentos para eternizar. E acredite, na maior parte das ocasiões numa viagem é isso que vai sobrar na sua memória quando a recordar.

Com o devido respeito pelos historiadores, mas será que nos lembraremos mais de uma data ou de um século, ou do nome do rei que construíu o castelo X ou da noite que dormimos ao relento assistimos ao nascer do sol das nossas vidas, ou um jantar em casa de uma família degustando uma das melhores –ou não– comezainas de sempre?

Ahmed, esperando pelo barco para ir até à sua aldeia no outro lado do Nilo, na casa deste homem passei uma tarde inteira a conversar sobre…futebol, tradições, política.

Pôr do sol em Jebel Barkal, com jovens sudaneses brincando na duna da montanha sagrada. Em cima à esquerda sudaneses saudando nos à passagem em Abri no norte do país

Sempre que reencontro alguém que já tenha viajado comigo, sem dúvida que têm sido muito mais esses momentos o tema principal.

Um dos episódios que recordo com mais emoção foi por exemplo uma simples tarde em que estive à espera de um transporte mais de 4 horas. O que isso tem de emocionante ? Nada, claro. Mas o ambiente que se proporcionou com as restantes pessoas que aguardavam foi algo que me tocou.

Os meus primeiros amigos sudaneses que conheci logo na fronteira com o Egipto!

São imagens como esta que perdurarão dentro de mim para todo o sempre.

Por que razão estas pesoas que ganham 50€ por mês (de ordenado médio) insistem em pagar-me refeições? Por que razão me oferecem dormida? O que as motiva a querer conversar comigo e a despedirem-se de mim como se me conhecessem há 20 anos ?

Apesar de “desconfiar” das respostas é algo que me faz pensar sempre. Mas também chego a uma conclusão. Vivo neste meu “mundinho” ocidental, bombardeado por tecnologias, avanços disto e daquilo, coisas, entretenimentos, a pensar e contemplar o que está longe e a esquecer o que está à minha vista e que por vezes me obriga a criar dilemas bastante questionáveis.

Servem estes momentos para cair muitas vezes na real. São chapadas. São como que uma voz a alertarme: acorda, pá! Pára! E preciso de parar. O Sudão proporcionou-me muitos momentos assim e estarei eternamente grato a este povo.

Mais recentemente, o que dizer acerca de uma tarde numa barbearia no norte do país? Uma tarde com conversas de amigos que poderia ser uma tarde num café ou barbearia da minha terra.

Uma tarde em que rimos muito, rimos do Sudão, rimos de Portugal, rimos das suas tradições, das nossas tradições, rimos de nós próprios e eles riram deles próprios. Falámos muito de futebol, e de coisas que se falam também nas barbearias de cá. Mulheres, homens…

Respeitámo-nos como se não houvesse amanhã. E no fim abraçámo-nos todos com um brilho no olhar do mais verdadeiro que senti até hoje.

A barbearia em Abri!

E o senhor de uma mercearia em Kassala, que me emprestou a sua bicicleta ? Já para não falar de um chá bem bebido com dois jovens em Kassala, se um deles não falava patavina de Inglês o outro parecia bastante avançado no que toca a substâncias suspeitas de nível psicotrópico. Foi uma grande risada e quando penso naquela conversa surreal rio-me…sozinho.

PASSEIO DE BICICLETA NO SUDÃO

Claro que temos que nos predispôr a isto, temos que ter abertura pra dar de nós também mas se isso acontecer o retorno irá ser decerto muito maior.

É um desafio resistir em contar-vos estes encontros à medida que vou recordando as fotos e os vídeos mas seria porventura um descricionário exaustivo para dizer a mesma coisa.

O que dizer de uma viagem de autocarro de acabou em dança, não só de grande parte dos passageiros (mulheres) e mesmo do autocarro? Pode ser isso considerado um dos momentos altos de uma viagem? Pode, e foi.

Mas deixo-vos com o meu último dia no Sudão passado em Kassala, onde assisti quiçá ao pôr do sol mais intenso dos últimos tempos.

Mas atentem, o pôr do sol, propriamente dito foi o que menos importância teve.

Mas sim o instante, o momento, o agradecimento. O agradecimento a estas crianças e jovens que me forçaram a subir parte da montanha em busca da melhor vista.

Perdurará na minha cabeça o seu brilho nos olhos e entusiasmo por estarem ali connosco a ajudarem-nos a escalar as montanhas de Kassala. Comunicámos tanto e não falávamos minimamente nenhuma língua em comum. É verdade que por vezes isto é avassalador, e tanto assim é que preciso sempre de uns dias para olhar para trás e absorver tudo o que aconteceu.

Deram-me muito mais estes miúdos do que lhes dei a eles e eles não o sabem, nem nunca o saberão o quão fizeram feliz este estúpido ser que se queixa de tanta coisa sem razão.

O pôr do sol em Kassala

É uma luta viver neste mundo inundado de consumismo, o mundo das coisas rápidas. De textos curtos, de palavras curtas, do criticar, do não elogiar, das amarras, do beijo a correr, da falta do abraço, de rápidas canções, de deitar fora e comprar novo, do não ter tempo, do não apreciar, o mundo das listas para isto ou aquilo, das coisas formatadas, da foto rápida e perfeita, da não essência, do perguntar onde é que é a seguir, da falta de atenção pelo outro…do escutar, mundo do pudim instantâneo.

É uma luta que travo e que o Sudão me ajuda a vencer.

Obrigado Sudão.

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