Albânia, Bósnia-Herzegovina, Europa, Montenegro, road trips

À DESCOBERTA DOS BALCÃS | Roteiro de uma “Road Trip” pelos Balcãs

Há muito que me seduzida esta região do Sudeste europeu. Desde que me conheço como gente. E para mim isso conta desde que me lembro ver os noticiários da RTP1 nos inícios dos anos 90, quando falavam quase infinitamente da Jugoslávia, do exército com os generais todos chamados de “qualquer coisa…ic”, de bósnios-muçulmanos, de cristãos ortodoxos, bósnios-croatas, croatas, sérvios, capacetes-azuis, albaneses, kosovares…Sarajevo.

                        Exposição no Museu Gallery 11/07/95

 

Então posso assim resumidamente enunciar quatro razões que me levaram a descobrir os balcãs:

Primeiro, porque sempre tive uma férrea opinião de que terras que são disputadas, e que têm, digamos…uma “efervescente sociedade multi-cultural” e uma história milenar de conflitos étnicos, deverão ser no mínimo interessantes.

Segundo, porque numa europa apinhada de turistas percebe-se claramente que aqui ainda poderemos visitar locais sem ter o receio de pisar o pé de alguém.

Terceiro, porque ficamos com um lamiré do que é a europa central, um cheirinho forte da europa mediterrânica e levamos um banho de imersão do que é estar na europa de leste.

Quarto, porque paisagisticamente tem uma variedade como não tem par no nosso velho continete, desde as florestas virgens e parques naturais do Montenegro e Albânia, passando por praias paradisíacas sobretudo na Albânia e Croácia, o sedento de turismo, aliás, diria de pessoas, o jovem Kosovo, já falei na Albânia? Sim a louca mas um poco ingénua Albânia, que juro-vos até nalgumas coisas me fez lembrar na organização e estradas…um qualquer país africano, mas ao mesmo tempo o bom gosto e irreverência eropeia… e com a omnipresente Bósnia-Herzegovina que considero “TER TODOS OS INGREDIENTES ANTERIORES MAS COM MAIS UMA PITADINHA DE SAL” e… Sarajevo.

E foi a partir daqui que desenhei o meu roteiro de pouco mais de 2 semanas. Não foi fácil, mas isso é bom sinal. Ter de escolher e colocar de parte lugares espantosos quando não há tempo para tudo é cruel. E lá ficaram de fora a grande Sérvia, Macedónia, Bulgária e Roménia.

CROÁCIA

A Croácia para a maioria do povo seria a estrela da festa. Para mim não. Nada me move contra o país, apenas sei que de todos é onde o turismo está mais massificado. Talvez a série “Guerra dos Tronos”, que por lá andou a filmar tenha contribuído para isso. Em todo o caso,  tinha de ir ver com os meus próprios olhos Dubrovnik. E fui. Rápido mas fui. Muita gente.

Cidade costeira que outrora até foi capital de uma República e grande rival de Veneza. Fez me arregalar os olhos à chegada pois da estrada avistamo-la lé em baixo pequenina e frágil perante o Adrático. Uma vez “lá em baixo” vai se a fragilidade. É feita de pedra, cheia de turistas sim, mas Dubrovnik não tem culpa…. Deixem-se perder no meio das muralhas e por ruelas empedradas, talvez dê de caras com um dos cenários da mítica série.

BÓSNIA-HERZEGOVINA

Comecei bem e entrei a fundo no país mais multi-étnico dos Balcãs. Comecei por MostarAqui tudo gira em torno da Stari mostou ponte velha sobre o rio Neretva com cerca de 400 anos é Património mundial da UNESCO e liga a margem ocidental e oriental da cidade, mas além da ligação física a ponte totalmente destruída nos anos 90 pelas tropas croatas tem uma ligação muito mais espiritual, além do significado especial que os jovens locais sentem ao saltar da ponte para o rio, simboliza também a união numa cidade que, para quem a visita vai perceber estar afinal ainda dividida.

Nos arredores de MOSTAR:

Visitar o místico MOSTEIRO SUFISTA DE BLAGAJ do séc. XVI. O cenário é o seguinte: imagine um rio em que a nascente brota de uma caverna na montanha, o mosteiro está ao lado.

Mosteiro de Blagaj

CASCATAS DE KRAVICE: Não têm a reputação dos lagos e cascatas de Plitvice, mas garanto que não irão ficar desiludidos, com a vantagem que se o tempo estiver de feição nada o proibirá de dar um mergulho.

SARAJEVO: Era um dos meus esperados “highlights” da viagem, ao ponto de ter apressado a minha estadia noutro ponto para aqui poder estar mais dias. Ainda bem que o fiz. Cidade de natureza, cidade de betão. Cidade jovem, cidade antiga. Cidade solene, cidade descontraída. Cidade da esperança, cidade do sofrimento. Cidade do Ocidente, cidade do Oriente. Cidade de mesquita, cidade de igrejas e sinagogas. Não me peçam descrições históricas, Sarajevo vive-se. 

Sarajevo

MONTENEGRO:

Foi de passagem, por duas vezes, pois o meu percurso foi circular. Para lá desfrutei de KOTOR uma vilazinha medieval fortificada, rodeada de montanhas (como tudo neste pequenino país que não é União Europeia mas que usa o €URO), e para complicar ainda mais a questão digo-vos que estamos num fiorde. Afinal não os há só na Noruega. Fiquei a acreditar que as montanhas dão um tom especial à cor das águas. Deixem-me sonhar…

Por ali perto podemos ainda visitar pequenos povoados como PERAST que tem 400 habitantes, mas quase uma vintena de igrejas e um vasto conjunto de palacetes, a maior parte de influência veneziana. Se olharem em volta vão descobrir duas ilhotas com capelinhas parecendo flutuar nas águas. A ilha da Pedra e a ilha de São Jorge.

Destaque: PARQUE NACIONAL DURMITOR, no coração do país temos um dos parques mais bonitos da Europa é até Património mundial da UNESCO pela sua biodiversidade. Destaca-se o colossal“canyon” provocados pelo apressado Rio Tara. Aqui, o rei é o “Rafting” e outros desportos radicais aquáticos. Se não se quiser aventurar com tanta adrenalina, faça caminhadas e respirem o ar puro que emana das densas florestas de pinho.

ALBÂNIA E KOSOVO:

A par talvez com SARAJEVO no meu TOP de prioridades estavam estes dois países. Cada um merecia o seu espaço, mas mais uma vez quando temos de fazer escolhas aconteceu que passei pelo país (não país) mais recente da Europa um pouco fugazmente.

ALBÂNIA: Para quem me conhece bem ou segue o meu blog,  sabe que me adapto melhor em locais menos organizados. Adoro mesmo um certo caos. Talvez quiça porque aí sinto-me a pessoa mais organizada e metódica do mundo, quem sabe…Seja como for sinto me bem no meio de algum caos. Isto para dizer o quê, que assim que cheguei à Albânia respirou fundo e pensei, “isto é a minha praia, estou em casa”. 

Entrei por SHKODER vindo do Montenegro. Fui recebido com muita gente nas ruas, muitos carros, muitos apitos, muitas lojas tradicionais, muitas lojas nada tradicionais, e néons, muitos vendedores de rua, uns legais outros de certeza nem por isso, muitas casas de apostas de jogos de futebol, pessoas a pedir, pessoas muito bem vestidas, muitos Mercedes-benz, muitos carros a cair de ferrugem, comida de rua, restaurantes e cafés “trendy” e ruas pedonais cheias de jovens nas esplanadas…Ah e esqueci me que facilmente se pode comer excelente comida típica a preços fazer cair o queixo…para baixo. Notem que por aqui comida tipica pode incluir pizza ? Pois é…há por aqui muita influência do vizinho da frente. Querem comer pizzas de tamanho familiar a 4€ ? Vão à Albânia.

Vista do castelo de Rozafa sobre Shkoder

SHKODER tem mais ainda para ver como o Castelo de Rozafa, o lago que dá nome à cidade e onde se pode comer um delicioso peixe frito e,  alguns museus muito interessantes. Mas uma cidade com uma vida de rua tão intensa e cheia de povo vale mesmo a pena falar disso ?

 

Outros destaques da minha viagem à Albânia:

 

VALBONA e “uma das viagens de barco mais bonitas do mundo”:

TRAVESSIA DO LAGO KOMAN

Em meados dos anos 80 em plena ditadura comunista encabeçada pelo temível Enver Hoxha, foi construída uma barragem no Rio Drin, dando origem a um lago artificial chamado Koman. São sobejamente conhecidas por essa europa de leste fora algumas obras megalómanas características destes regimes, muitas das quais até abandonadas. Não foi o caso aqui, até porque seria “tecnicamente” uma obra útil. Tecnicamente útil ou não, hoje em dia podemos dar graças a que ela tivesse sido feita.

A viagem de barco que liga Koman a Fierze, mas também várias casas e aldeias isoladas nas margens do rio, além de ter sido considerada uma das viagens de barco mais belas do mundo é a melhor opção para quem pretende visitar a região montanhosa dos Alpes Albaneses (Valbona) e até o próprio Kosovo, evitando assim longa e perigosa ligação terrestre.

A melhor forma de chegar ao lago é a partir de Shkoder tomando a estrada principal em direcção a Vau Dejes.

Vista da viagem de barco Koman-Fierze

 

VALBONA

Agora falemos baixinho para que ninguém nos oiça. O Parque nacional de Valbona situa-se no norte do país bem juntinho ao Kosovo e é bem mais acessível partindo da cidade de Shkoder.

“So far so good”, a questão é que eu nem sequer imaginava nem em sonhos esta zona do globo pudesse oferecer algo assim à humanidade. Bom, nem eu nem se calhar muito boa gente pois ao que apurei o número de pessoal por ali a fazer caminhadas ou alpinismo está a crescer, ainda assim continua a ser um destino fora da caixa. E é isso que porventura dá lhe o toque especial que outras regiões já mais que lotadas perderam. O som da montanha. O som da montanha é imenso, é ensurdecedor, assustador, contudo é silencioso. Aqui ainda há silêncio.

Não é necessário legenda

Em cerca de 80km2 acompanhados por um rio com o mesmo nome temos: paisagens alpinas, glaciares, “canyon’s”, espantosas formações rochosas, quedas de água e florestas virgens, mas a cereja no topo do bolo é que temos isto tudo acompanhados de uma vida rural albanesa absolutamente genuína, indo de encontro ao nosso imaginário do que será o “Balkan style…”

Devido a ser uma área remota e de não muito fácil acesso não foi assim difícil preservar este grande ecossistema, mencionado por vezes como o “Milagre Albanês dos Alpes” .  Fica um segredo só nosso, sim ?

 

10 Comments

  • Reply

    Luis Felipe Afonso

    27 Maio, 2018

    Lugares bem menos explorados pela massa turística, mas já com um princípio de mercantilização. Realmente lindos! Belíssima foto de Vslbona!

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    Tina Wells

    27 Maio, 2018

    Que viagem incrível, texto maravilhoso e fotos belíssimas! Bom saber que ainda há lugares em que podemos respirar natureza e não turistas que, por muitas vezes, estão ali só pra tirar fotos e dizer que foram, sem interesse algum na cultura do lugar! Melhor manter segredo sobre essas jóias raras!

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    Marlise Montello

    27 Maio, 2018

    Também gosto e conhecer estes lugares menos explorados. Muito legal o texto, aliás, muito bem escrito. As razões e as fotos me deixaram com uma pontinha de vontade de conhecer estes lugares. 😉

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    Filipe Morato Gomes

    27 Maio, 2018

    Duas semanas para esse roteiro foi bem puxado, olha que essa região merecia mais calma 🙂
    Grande abraço e power aí!

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      projecto100rota

      27 Maio, 2018

      Concordo em absoluto, mas não dava para mais.De certeza que voltarei com mais calma, grande abraço!!!

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    Eloah Cristina

    27 Maio, 2018

    Desejei esse passeio de de barco Koman-Fierze. Parece cenário de filme.

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    Edson Amorina Jr

    28 Maio, 2018

    Nós conhecemos só uma parte do Balcãs mas já concordo contigo que é uma viagem maravilhosa e que precisamos voltar.

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    Vítor Martins

    28 Maio, 2018

    Grande viagem!!estou a pensar fazer essa rota não tarda muito!!!Parabens

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    Janete

    28 Maio, 2018

    Fizemos Eslovénia e Croácia o mês passado, fomos propositadamente fora da época turística e exploramos algumas zonas menos conhecidas. Assim conseguimos experiências bem genuínas especialmente no interior. Ficou a vontade de regressar para conhecer os países vizinhos! E o seu post veio aguçar a curiosidade.

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    Marcia Picorallo

    29 Maio, 2018

    Também gosto de roteiros circulares – e também sempre tenho pouco tempo pra viajar, então seu post caiu bem, salvei pra quando eu for!

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