Africa

SUDÃO | As minhas primeiras pirâmides, KARIMA, NURI e o JEBEL BARKAL

Não quero procurar mais adjectivos espectaculares para descrever o que foi explorar este e outros lugares no Sudão. Foi incrível. Ponto. 

Sei bem que grande parte se deve ao facto de não haver turistas, sim, sei que é um sentimento algo egoísta mas eu não tenho culpa disso e sinceramente espero que um dia o Sudão saiba tirar algum proveito dos sítios importantíssimos que tem na história desta região de África. Haja algum iluminado por aquelas bandas que perceba que o turismo pode ser a pérola de um povo tão carenciado.

 KARIMA e o Jebel Barkal

São cinco os locais arqueológicos que pertencem ao conjunto inscrito no património UNESCO –“Jebel Barkal and the Sites of the Napatan region” . Em várias dezenas de km ao longo do rio Nilo, podemos aferir e testemunhar a presença da fascinante cultura núbia de Napata -uma das antigas capitais- pertencente ao reino de Kush.

Os mais próximos de Karima são: Jebel Barkal, Nuri, El-Kurru, Sanam e Zuma. Destes estive apenas na colina sagrada, o Jebel Barkal e em Nuri.

Vista sobre a nova cidade de Karima desde o topo do Jebel Barkal

O Jebel Barkal, uma pequena montanha em arenito com quase 100m de altura, sempre omnipresente junto à cidade de Karima é considerado uma “montanha sagrada” desde há pelo menos 1500 anos. Os Egípcios acreditavam que o seu Deus “Amon” aqui residia. Na verdade, ainda hoje continua a ser um lugar especial para os locais sendo associado a várias tradições religiosas, sobretudo desde que aqui foi sepultado um importante “sheikh” .

Muito para além da história que envolve as antigas ruínas de Napata, foi especial  ver os locais a contemplar também o pôr do sol e o horizonte, lá bem do alto dos seus modestos 100m.

De um lado, o Nilo serpenteado o deserto, rodeado de extensos palmeirais. Do outro, as pirâmides de Karima, as “minhas” primeiras pirâmides no Sudão. Místico.

Certo que as ruínas das pirâmides, dos palácios, dos templos, representam bem a genialidade artística, social e política de um povo que por aqui viveu há mais de 2000 anos. Isso é inclusivé um dos critérios que a UNESCO utilizou para inscrever todos estes lugares na sua lista.

Na “minha lista”, foi inscrita a simpatia, cortesia e a hospitalidade deste povo que junto comigo quis partilhar  aquele final de dia. Obrigado.

Foi também aqui que avistei os únicos turistas em toda a minha viagem.

 

Pirâmides de Nuri

A cerca de 10km de Karima e do Jebel Barkal estão as pirâmides de Nuri. Estão, mas estão em muito mau estado.

Não foram minimamente recuperadas, mas isso até pode não ser de todo negativo e quando falar de Meroe irão perceber o porquê.

Ok…chegar ao ponto de total abandono e negligência ao ponto de podermos levar os tijolos para casa, ou fazer escalada, ultrapassa os limites do razoável. Mas estamos no Sudão, e é só por isso que não chamam à atenção! Devido à pouca afluência de turistas, não é vigiado e protegido. A meu ver a importância histórica do local isso merecia.

“Assim, logo para entrar a matar” posso dizer-vos que são das ou mesmo as mais antigas no Sudão, os arqueólogos contam 73 construções, foi aqui sepultado o Faraó Taharqa  da XXV dinastia do antigo Egipto. É a si que pertence a pirâmide mais imponente do complexo.

Até para entrar…ou melhor para chegar até elas –não há qualquer tipo de obstáculo– foi uma experiência, do nada, aparece um senhor com uns mapas e um polícia, ou pelo menos, um senhor fardado de azul que me parecia um polícia ou militar.

Perguntam-me de onde sou –lá vem o CR7– e depois mostram-me autógrafos de jogadores como Roberto Carlos e outros que, segundo eles, estiveram ali. Mostram-me um mapa, que contém as pirâmides e ao que me pareceu o nome de quem terá sido ali sepultado e o seu respectivo ano de construção. Como sou do país de CR7 dizem-me que o bilhete são 100SDG. Paguei…afinal são só 3€, analisando bem já gastei 3€  em outras ocasiões, mais mal gastos;-)

O calor era forte, pudera, estava mesmo a meio do dia e por isso mesmo não me demorei muito. Ainda ponderei seguir dali e visitar o Túmulo de El Kurru que conserva ainda pinturas bem visíveis. Não o fiz. O calor venceu. Hoje claro, estou arrependido. Mas já sabia.

O meu dia termina relaxando nas esplanadas do centro de Karima. É comum no Sudão ver as mulheres sentadas nas ruas com pequenas bancadas, a vender chá aos homens que se sentam em seu redor conversando sobre os temas mais diversos da sociedade sudanesa. Numa sociedade conservadora e machista, foi com estas mulheres com quem mais interagi, umas mais abertas outras menos, mas no geral bem simpáticas e curiosamente uma ou outra atrevidota…sim, prometo mais tarde esclarecer tudo aqui.

Não há água corrente, não há electricidade, as colheres, os copos tudo é passado pela mesma água até que lá entendam que é altura de a mudar. Não há crise, tudo ferve e o chá é de boa qualidade 😉

Mulher sudanesa vendendo chá nas ruas de Karima

 

COMO VISITAR: Visitei Karima e Nuri vindo de Dongola. As pirâmides de Karima situam-se no sopé do místico Jebel Barkal, que por sua vez está a cerca de 3km do centro da cidade e não tive de pagar nada nem a ninguém.

As pirâmides de Nuri estão mais afastadas, cerca de 1okm e tive de apanhar dois transportes. Um mini-bus para Merowe- não confundir com Meroe- e daí outro para a aldeia de Nuri.

 

ONDE FICAR: Só encontrei duas opções. Uma delas é a Nubian Rest House, gerido por europeus e com boas condições de conforto, mas proibitivo para a minha carteira, cerca de 100€ por noite.

E o Al Nassr hotel, um hotel sudanês, gerido por um simpático local que fala algum inglês e sabe dar indicações acerca dos sítios a visitar, o preço rondará os 100SDG. Não se deixe intimidar pela cama na recepção onde o gerente passa a noite…e o dia, e pelo pó à entrada, bem-vindo ao Sudão.

Como tem sido já tradição nos artigos do Sudão, tenho deixados uma fotografia como que simbolizando e homenageando a ternura, simpatia e hospitalidade com que SEMPRE fui tratado neste país “Perígosíssimo” do nordeste Africano.

Partilho convosco mais dois amigos que fiz enquanto aguardava o meu transporte para Atbara e daí segui para Khartoum.

Deixe uma resposta