A Nossa Maior Viagem, Portugal

CASTELO DE LEIRIA-“O meu castelo”

Localizado no topo de um morro, que muitos afirmam ser um vulcão adormecido, como que vigiando e guardando a cidade está o castelo de Leiria. É o castelo da minha cidade, da cidade de meus pais, avós e talvez bisavós. Lembro-me de ir ao mercado com a minha mãe, que me agarrava uma mão e com a outra eu apontava firmemente o indicador, espantado por ver “aquela casa tão grande e diferente”. Nessa época talvez o visse 1,2 vezes por mês. Era sempre uma excitação.

Depois, foi passando… veio a adolescência e o interesse diminuiu por estas coisas. Já nem o via quando passeava por Leiria. Mas ele estava lá, talvez me acenasse, mas eu não via.

A seguir fui embora. Fui embora de Leiria e nem lhe disse adeus. Percorri Portugal inteiro, vivi aqui e acolá, quase em todos os lugares possíveis e imaginários e até  “passei as passas dos Algarves”

O meu pai, esse senhor que foi o responsável direto por me passar o bichinho das viagens, partira, partiu para sempre, era com os olhos dele que eu via e aprendia, era o herói do meu castelo. Foi com os olhos dele que entrei pela primeira vez “naquela casa grande e diferente”, e foi da boca dele que ouvi a primeira vez: 1143, quem não sabe esta data, não é bom português“, e também “D.Afonso Henriques…D.Dinis e muitas histórias de uma padeira de Aljubarrota alternando com uma tal de  Maria da Fonte acabando num Zé do telhado, o Robin dos bosques português” . Entretanto tinha de começar a ver tudo só com os meus olhos. A interpretar tudo com os meus olhos. Mas será mesmo ?

Entretanto comecei a percorrer mundo e fiz de tudo um pouco, lá fora e cá dentro, guardei gado, fiz música, fiz moldes, fiz paletes, fui serralheiro, toquei música, toquei com maestros de renome nacional e até internacional, toquei com maestros que gostavam da “pinga” e caíam sobre a estante… toquei em palcos com cheiro a fumo da sardinha assada , toquei em Teatros nacionais e até lavrei barro…  E inclusivé fiz teatro ! Montei a cavalo, toquei montado a cavalo!

Namorei muito, errei muito, sorri muito, chorei muito, acertei muito, abri uma mercearia que se transformou em restaurante, e fechei, depois fui viajar, e estou a viajar e vi muitos castelos grandes, pequenos, góticos, românicos, palácios, cidades, pessoas, barracas, casas, vi mais coisas, e depois voltei. Voltei e o meu castelo estava diferente estando igual.

Voltei e o castelo permance lá bem firme no alto do seu morro. Os meus olhos mudaram. Agora consigo ver mais que um castelo. É História de Portugal, mas é também parte  da minha história. A minha vida.

Vista do Castelo perto do Largo da Sé

Quando passeamos pela cidade, a sua presença é tão forte  que, ande por onde andar ele vai atrás de si. O casario espalha-se em redor do morro do castelo e isso ajuda.

Há vestígios da presença humana naquele monte há pelo menos cinco mil anos. Faz sentido, dali vê-se tudo em 360º o que para os povos era providencial para a sua auto defesa. Naquela colina já se descobriram artefactos de várias épocas diferentes como da Idade do Bronze ou romana, tudo indícios de diferentes modos de vida.

Vista Oeste do Castelo

Mandado construir pelo primeiro Rei de Portugal-D.Afonso Henriques no séc.XII, com um estilo predominantemente românico e gótico mas com umas variantes, o “meu” castelo esteve votado ao abandono completo e em ruínas mais de 200 anos. Para tal terá contribuido  o terramoto de 1755, e as invasões francesas já no séc.XIX.

Postal da cidade do séC.XIX

Até que um tal de arquitecto suiço, que residia na cidade chamado Ernesto Korrodi se interessou tanto por ele ao ponto de gastar maior parte da sua vida levando a cabo uma grande recuperação terminada já nos anos 40 do séc.XX.

O amor pela “sua” obra foi tão grande que pediu para ser sepultado no cemitério de Leiria com a campa voltada para o morro.

Hoje em dia é sem dúvida alguma o ex-libris da cidade. O número de visitantes cresce a cada ano que passa, e de cerca de 40 mil almas que o visitavam, recebe agore em média 80/90 mil visitas. Contribui muito para esse numero crescente as várias iniciativas que a câmara local tem proporcionado na cidade, desde as já muito na moda, FEIRAS MEDIEVAIS até à magia de ter num local destes um festival gótico com bastante prestígio, mesmo a nível internacional como é o Festival ENTREMURALHAS

O acesso não é fácil. Mas creio que na maioria dos castelos isso é comum…Fala-se num elevador que saia da cidade e vá entroncar junto da entrada. Não sei. Facilitaria a vida a algumas pessoas de fato. O carro quase chega à porta, no entanto o estacionamento poderá ser um problema, até porque a Polícia mora por ali bem perto…

(Um segredinho…logo a seguir á polícia, do lado direito vai avistar uma igreja, atente, é a Igreja de São Pedro e é a mais antiga da cidade, única de estilo românico, se tiver a sorte de estar aberta. Entre, sem medos.)

O castelo fica no fim da subida à esquerda da esquadra, e o bilhete é adquirido imediatamente a seguir à porta do lado esquerdo na Casa da Guarda. Entrando subam à esquerda, ou não…não há regra. Siga por onde o instinto lhe indicar.

Uma das partes do castelo onde gosto mais de estar é no interior do que resta da Igreja de Santa Maria da Pena. A ruína é propositada diga-se, preservando assim um certo espírito romântico medieval, idealizado pelo arquiteto no restauro. Nem sempre o melhor restauro é voltar a colocar tudo como era antes, as cicratizes da história também fazem parte da vida dos monumentos. E essa energia sente-se no local.

Vista sobre a Igreja de Santa Maria da Pena

      Perspectiva do Interior da Igreja de Santa Maria da Pena, ao fundo vê-se a torre de menagem

 

Seguindo à direita damos a volta ao edifício e podemos visitar a torre de menagem do qual faz parte também um pequeno mas interessante núcleo museológico.

Lá do alto da torre (esqueci-me de tirar uma foto) tem-se uma vista incrível sobre a região, avistamos a Serra de Aire e Candeeiros, e com um pouquinho de sorte quem sabe ainda colocamos o olho no mar. Vê se também muito bem a Norte, o Santuário do Senhor Jesus dos Milagres que breve também terá o seu lugar aqui no blog.

Vista da Torre de Menagem sobre o castelo e parte do centro histórico, destaca-se a torre sineira da Sé de Leiria e a própria Sé.

Depois de visitar a torre, atente à muralha contígua. Quando avistar uma porta pequena sensivelmente de frente, tenha cuidado, é a porta da traição, onde se crê terem entrado à socapa os mouros numa das tomadas do castelo.

Torre de menagem à esquerda, vista das “traseiras” do castelo.

O roteiro mais usual é terminar no Palácio Real e na sua Alcáçova a descansar nas suas varandas enquanto contempla o rebuliço da cidade a seus pés, e tenta identificar vários pontos por onde provavelmente andou. Aqui podem ainda ver a sala do trono e das audiências.

Vista sobre a cidade

É assim o “meu” castelo, nem grande nem pequeno, em ruína e bem preservado, longe mas perto o suficiente, foi importante deixou de-o ser, há até quem não o veja, imponente consoante os nossos olhos e até “guarda” um estádio de futebol de gosto duvidoso, tem lendas, tem histórias, tem histórias verdadeiras como a minha. O Castelo é Leiria. Leiria é a minha vida.

A melhor hora para visitar o espaço se puder é ao fim da tarde, ao pôr do sol. De manhã aproveite para passear na cidade lá em baixo e olhá-lo a partir daí.

 

INFORMAÇÕES

Castelo de Leiria

Telefone: +351 244 839 670

Horário: verão (01/04 a 30/09): 10h00 – 18h00; inverno (01/10 a 31/03): 09h30 – 17h30

Encerra: dias 25 de dezembro e 1 de janeiro; domingo de Páscoa

Entrada/ Preços: 2,10€/adulto; ate 10 anos: grátis; dos 11 aos 25 anos e maiores de 65 anos – 1,05€

Bilhete combinado com um dos museus de Leiria: 2,50

ONDE FICAR:

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16 Comments

  • Reply

    Patricia câmara

    21 Dezembro, 2017

    Muito bom Francisco 🙂 aconteceu me o mesmo com o Mosteiro da Batalha, mas felizmente o meu pai ainda esta comigo. Lamento pelo teu mas tenho a certeza que continua contigo e a olhar por ti sempre. Quanto ao castelo de Leiria, há anos que não vou lá! Esta na hora de tratar disso.

    • Reply

      projecto100rota

      21 Dezembro, 2017

      Olá Patrícia, muito obrigado por passares por aqui. Há que aproveitar e dar graças aos nossos que estão junto de nós, já faleceu há alguns anos, mas claro…está sempe no meu pensamento, mas nesta época acentua-se sempre este sentimento nostálgico. Tenho de ir ao Mosteiro também em breve !!! Boas viagens, beijos e abraços!

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    Robba Caravieri

    23 Dezembro, 2017

    Adorei a matéria, está ótima e as fotos estão lindas demais! Eu ainda não conheço Leiria, sou super fã de um cantor que é daí sabia? O David Fonseca, amo ele demais! Valeu pelas dicas sempre maravilhosas! Feliz Natal pra vocês!

    • Reply

      projecto100rota

      23 Dezembro, 2017

      Você conhece o David Fonseca ? Uau, sim seei que ele é daqui aliás ele é originário de uma localidade a uns 8km da minha hehehe Obrigado, ainda bem que gostou Robba. Feliz natal !

  • Reply

    Karine Porto

    24 Dezembro, 2017

    Adore o jeito que contaste um pouco de tua história e como ela se misturou tão naturalmente com a forma que contaste a história do Castelo de Leiria! Fiquei com vontade de conhecer.

    • Reply

      projecto100rota

      24 Dezembro, 2017

      Obrigado Karine, boas viagens, e Boas festas!

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    VICTORIA M FARINA

    24 Dezembro, 2017

    Que demais saber sobre esta história fantástica e ter informações úteis no final a respeito! Para mim, se visito um lugar que faz parte da minha história ele fica mil vees mais interessante, acho que para vocês também, ne? 🙂 Adorei o post!

    • Reply

      projecto100rota

      26 Janeiro, 2018

      Obrigado victoria por passar por aqui, boas viagens!

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    angela sant anna

    25 Dezembro, 2017

    imaginar como era tudo antigamente muda muito a visita e a forma como percebemos o lugar! adorei o relato!

    • Reply

      projecto100rota

      26 Janeiro, 2018

      Obrigado angie, boas viagens!

  • Reply

    Martinha Andersen

    25 Dezembro, 2017

    Que post mais lindo. A história e a forma que você a contou é incrível. Meu pai também já faleceu, e com ele que eu peguei o gosto pelas viagens. Mas agora eu conheço lugares, e sei que meu pai está sempre comigo. “Conheci ” Leiria somente de passagem, mas agora, graças ao seu post já quero retornar!! Boas festas!! =)

    • Reply

      projecto100rota

      26 Janeiro, 2018

      Beijinhos Martinha, obrigado por passar por aqui, bom ano e boas viagens!

  • Reply

    Analuiza

    26 Dezembro, 2017

    Quanta beleza nesta narrativa! Quanta sensibilidade no olhar para este mundo! A introdução é para emocionar e pensar…

    Estou encantada com o Castelo de Leiria que atravessou os tempos para nos ilustrar parte da história portuguesa. Ainda bem que sabiamente mantiveram intactas suas cicatrizes, pois elas fazem parte de sua trajetória. Tenho certeza que um dia eu volto a Portugal para explorar mais cidades. 🙂

    • Reply

      projecto100rota

      26 Janeiro, 2018

      Olá Analuiza, fica mais fácil para mim quando escrevo algo que toca no coração. Têm de vir até Leiria, se vierem digam qualquer coisa, boas viagens!

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    Keul Fortes

    26 Dezembro, 2017

    Muito lindo esse castelo. Impressionante essa riqueza de detalhes! Turistar em castelos é como dar uma volta ao tempo.. Emocionante! Parabéns pelo post.

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      projecto100rota

      26 Janeiro, 2018

      Obrigado Keul, boas viagens!

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