Médio Oriente, Palestina

NABLUS-Uma doce e resistente cidade da Palestina

Visitei Nablus vindo da capital da Palestina Ramallah, que por sinal, é a forma mais prática de chegar até aqui. Não foi fácil no sentido que tive de esperar um dia para poder passar no “checkpoint” de Huwara. Por aqui o conflito israelo-palestino está bem vivo e na véspera tinha havido escaramuças numa aldeia das redondezas. Resultado? A tropa israelita ordenou que niguém entrava nem saia da cidade e da região tampouco. Mas num dia normal é bem simples, inclusivé a partir de Jerusalém.

Se vos disser que o principal motivo que me trouxe esta cidade foi a manufactura de sabão se calhar vão achar alguma piada. Mas é verdade. Tenho um interesse crescente por trabalhos feitos à mão. Então um pouco por acaso ao fazer pesquisa para esta viagem por Israel e Palestina encontrei Nablus.

Vista de Nablus desde o Monte Ebal

E ainda bem. pois Nablus foi uma grande, senão a maior surpresa da viagem, com um bem preservado centro histórico, cheio de cor e vida.

Conhecida em hebraico como “Schechem”, Nablus fica situada a cerca de 6okm a norte da cidade de Jerusalém. É a capital da Província e um importante centro cultural e sobretudo comercial palestiniano.

Encravada no meio de duas montanhas sagradas-Monte Gerizim e o Monte Ebal-hoje em dia é também um símbolo de resistência à ocupação israelita, principalmente desde a invasão em Abril de 2002 em resposta à segunda intifada. Estão por todo lado referências a mártires desta efeméride e muitos combatentes e personalidades importantes ligadas à luta armada têm ligações a esta terra.

Nablus foi fundada pelo imperador romano no ano de 72 como “Flavia Neapolis”, foi contudo disputada e governada por vários impérios em quase 2000 anos de história. No séc.VII foi conquistada pelos árabes que lhe deram o nome actual. Em 1099 os cruzados tomaram conta da cidade deixando os cristãos, muçulmanos e SAMARITANOS relativamente em paz. Depois, Saladino tomou conta da região e em 1187 foi restabelecido o domínio muçulmano, sucedendo depois os Mamelucos e Otomanos até os britânicos por aqui se intrometerem durante a Primeira grande guerra.

Porque escrevi SAMARITANOS em maiúsculas ? Bom, porque é aqui no alto do Monte Gerizim , que residem parte do que resta ainda deste pequeno grupo religioso.

Ruela do Souk de Nablus

Sentia-me com energia. O dia acordou com sol firme e céu azul, por isso fiz-me logo à cidade indo de encontro à “Old city”.  As ruas fervilham de movimento. Impressiona mesmo a quantidade de pessoas que se movimentam nas ruas, na parte nova e na parte antiga. É algo muito comum na Palestina, talvez devido ao facto de haver grandes concentrações de pessoas em pouco espaço, contribuindo para isso a existência de vários campos de refugiados.

Mesmo aqui existem dois que em pouco mais de 0.25 sq Km2 acolhem quase 35.000 pessoas. O grande campo de Balata e um bem mais pequeno perto do centro da cidade.

Mercado de Nablus, ao fundo, uma das mesquitas.

Tinha tempo. Não me preocupei sequer em saber onde estava e se me perdia ou não. Fui andando de rua em rua. Caso me desnorteasse sabia que por estas bandas há sempre alguém disposto a ajudar. Muitos cumprimentavam e diziam “welcome”Penso que seria o único turista na cidade. Vi mais dois ocidentais mas pela vestimenta pareceram-me voluntários da ONU nalgum dos“refugee camp”. 

Tanto comércio, tanta fruta, tantos vegetais, tanto de tudo, tantos frutos secos, a minha perdição! É quase impossível resistir. E eu não resisti. Mais que uma vez.

Cafés, barbearias, padarias, pastelarias. Até Turkish Baths” a fazer o serviço completo por 8€ !! Tudo isto em ruelas empedradas atravessadas por pequenos túneis e becos, interrompidos pelo brincar das crianças que confere com o facto de muitas famílias ainda aqui viverem.

Crianças a jogar à bola nas ruas da “old city” em Nablus

Uma das entrdas do bazar de Nablus

A dada altura um dos pregadores da mesquita “principal” ou seja, o imãpenso que fosse pois não falava muito bem inglês– aborda-me e oferece-me ajuda para encontrar uma fábrica de Sabão artesanal que estivesse aberta. Aceito.

Foi muito divertido caminhar com este senhor de longas barbas. Percebi que me falava de religião, eu dizia que sim a tudo, mas pouco percebia.

Até que de repente ao virar de uma esquina lá estava. Estampado numa parede um letreiro publicitava a fábrica. Uma delas. Já foram mais de 30 na cidade. Restam tantas que os dedos de uma mão chegam para contar.

Entrei e fui muito bem recebido pelo proprietário que me explicou pormenorizadamente todos os passos de como fazer sabão. Como no dia não estavam a produzir não tive oportunidade de assistir ao processo, tendo para isso indicado que provavelmente na fábrica “TUQAN”  iria ter essa sorte.

Após uma longa conversa acerca dos problemas com que se debatem estes pequenos comerciantes saí, comprando sabões 100% naturais a 1€ cada. Vieram para toda a família!!

A produção de sabão é uma velha tradição de parte desta região que inclui: Síria, Líbano, norte de Israel e a Palestina. O sabão era por aqui feito de modo a aprovetar o que remanescia da produção de azeite. Com algumas variações os ingredientes são apenas três: água, azeite (virgem) e soda cáustica. Supostamente o que distingue o de Nablus é a qualidade da água e do azeite.

Era feito nos seus primórdios exclusivamente pelas mulheres um pouco por todos os lares, depois, gradualmente começou a intensificar-se a produção nalguns centros urbanos de modo a comercializá-lo, mas sempre o fabrico 100%natural.  Os mais famosos eram em Aleppo na Síria, em Tripoli no Líbano e em Nablus.

Com alguns devastadores terramotos, os conflitos, as dificuldades de exportação, e ao mesmo tempo o florescimento de outros produtos com menos mão de obra e por conseguinte mais baratos, a tradição começou a entrar em declínio, restando agora o aproveitamento para lojas “gourmet” ou turismo.

No “verdadeiro” sabão de Nablus tudo é feito de forma manual desde o cozinhar, espalhá-lo no chão para endurecer, cortar, secar e empacotar

Deixo-vos aqui um pequeno vídeo do processo de embalamento.

Este vídeo e as próximas fotos NÃO SÃO DA FÁBRICA ACIMA, pois essa não estava mesmo a produzir,  mas sim da maior fábrica ainda em funcionamento a “Tuqan Factory” na orla da cidade velha.

 

Já de almoço tomado e barriga cheia continuei a minha caminhada. A pedido de várias famílias-neste caso do meu “guia improvisado”-o tal Imã -que já não me acompanhava- lá fui visitar a mesquita. E olhem que não foi nenhum sacrifício, bem pelo contrário. Além de ter achado piada a dois miúdos que faziam diabruras, o edifício era interessante naquilo que já foi uma catedral.

Já mais tarde percebi que o facto da mesquita estar presente no famoso MAPA DA TERRA SANTA DE MADABA” atesta bem da importância desta terra na época.

Interior da mesquita principal de Nablus

Outro grande monumento da cidade é a Pastelaria. Sim. Isso mesmo, leu bem. Por aqui os diabetes devem ter sucesso. Toda a gente bota açucar, toda a gente enfarda bolos sem parar…mas há um especial.

Não me poderia despedir sem falar do: KUNAFEH! Meus senhores, este doce está por aqui como o pastel de nata está por Portugal. É verdade que o podem encontrar na Jordânia, Israel, no Líbano, no Egipto e quiça por mais algum país do levante, mas como este, NÃO HÁ IGUAL! 

Desculpem dizer isto- e sei que não é exclusivo dos homens- mas acho uma piada tremenda ver filas de homens com ar de machão agarradinhos a uma colher pequenina a comer um docinho como se não houvesse amanhã, tão fofinho… aliás, é um pouco como se passa no IRÃO mas com os gelados.

Nablus é pois bem famoso pelo seu KUNAFEH. Uma sobremesa com queijo, uma espécie de massa fininha tipo aletria, e uma camada crocante de açúcar e frutos secos no topo, tudo regado com uma calda bem docinha, que eu dispenso.

Experimentei várias ao longo da viagem. Todas as outras confesso ter achado muito doces e como tal enjoativas, até provar a de NABLUS e a deste senhor, que mais tarde vi estampado numa revista no aeroporto de…? Imaginem ? Israel. 😉

Rei do “Kunafeh” !

Se você for guloso de certeza que será muito feliz em Nablus.

Boas viagens e bom apetite !!!

Na minha modesta opinião vale mesmo a pena visitar Nablus. Como sabem Israel e Palestina juntos são dois territórios bem pequeninos, mesmo que não possa ficar a dormir aqui pode muito bem fazer um BATE-VOLTA mesmo a partir de JERUSALÉM.

Em geral é bem mais barato, as pessoas foram bastante calorosas e a cidade cheia de autenticidade, só por si tem interesses de sobra.

Ainda a partir de Nablus é possível visitar alguns locais que podem ser interessantes como:

JACOB’S WELLS – Mencionado no antigo testamento e também no novo que diz que Jesus terá descansado junto ao poço de Jacob enquanto conversava com uma mulher Samaritana.

BAIRRO DOS SAMARITANOS– Situado no topo do Monte Gerizim que consideram o local mais sagrado dos locais sagrados, ao contrário do resto dos Judeus que consideram o Mote do Templo em Jerusalém como o top nesta hierarquia. Vivem hoje aqui pouco mais de 300 pessoas.

Chegar lá apenas é possível de táxi ou à boleia como eu fiz. Não tirei fotos pois pareceu me um pouco desadequado, além de que o bairro é moderno e em si mesmo não tem nada de interessante. Limitei-me a observar as pessoas. Soube que como só se podem casar entre eles o casamento entre primos é bastante vulgar. Poderá ser interessante se visitar o Museu ou tiver a sorte de assistir a uma das suas antigas tradições.

BALATA “REFUGEE CAMP”  É o maior campo de refugiados da Palestina. Foi construído para albergar aqui cerca de 5000 pessoas, actualmente residem perto de 30000.  As tropas israelitas utilizam-no muitas vezes para exercícios de combate e também efectuam muitas acções de busca para detectar focos de oposição, digamos assim.

 

COMO CHEGAR A NABLUS: 

Não diria a única mas anda lá perto. Para chegar a NABLUS a melhor forma é a partir de RAMALLAH a capital da Palestina. Daqui pode apanhar um mini-bus amarelo “service taxi”  que é partilhado por cerca de 10NIS. A viagem dura pouco mais de 1h se não demorar muito no “checkpoint”.

Se quiser partir de JERUSALÉM o percurso é o mesmo com a diferença de ter de apanhar um mini-bus amarelo“service táxi” de Jerusalém para RAMALLAH por cerca de 8NIS e depois de RAMALLAH para NABLUS. Fácil.

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ONDE DORMIR: Não se pode dizer que NABLUS tem uma vasta rede de alojamentos. Mas tem alguns caso decida pernoitar aqui pode reservar no link do nosso parceiro abaixo:

ALOJAMENTOS EM NABLUS

 

22 Comments

  • Reply

    Anderson Kaiser

    3 Fevereiro, 2018

    Que lugar interessante. E é impressionante ver que mesmo em meio à conflitos e ataques, com aquela sensação sempre de “medo” a vida ainda acontece. Adorei as fotos e o local.

    • Reply

      projecto100rota

      5 Fevereiro, 2018

      A cidade é pacífica no dia a dia. Acontece que política dá no que dá…somente política. O dia a dia é vivido com mais intensidade sim. Obrigado!

  • Reply

    Analuiza

    4 Fevereiro, 2018

    Achei todo este passeio sensacional e um misto de outros mil sentimentos à medida que eu fui avançando por suas palavras. Uma lástima qualquer tipo de conflito, especialmente aqueles que matam e destroem, que riqueza de lugar onde tantas culturas já passaram e ao mesmo tempo, quanto sofrimento nesta região, dominada por tantos povos. Que beleza conhecer um lugar diferente do nosso lugar de origem e ao mesmo tempo similar, pois no final das contas somos todos seres humanos. Que arquitetura interessante e que maravilha perder-se entre suas vielas. Que gostoso experimentar novos sabores e ter tantas sensações despertas. Que pena que conflitos e tantas outras questões estejam tornando difícil a tradição da fabricação do sabão.

    Não sei se um dia visitarei esta região. Pode ser bobagem ou até ignorância de minha parte, mas além dos conflitos que parecem não ter solução, como mulher tenho medo destas regiões. Sigo observando outros viajantes, para quem sabe um dia, ir também?! 🙂

    • Reply

      projecto100rota

      5 Fevereiro, 2018

      Obrigado Analuiza. Acho que deveria ir, afinal viajar também é bom se sairmos da nossa zona de conforto, não +e não ? Se sentir mais à vontade até poderá fazê lo em grupo. São locais que nos enriquecem muito. Obrigado pelo comentário. beijinhos.

  • Reply

    Flávia Donohoe

    4 Fevereiro, 2018

    Que experiência tão enriquecedora, visitar essas cidades que a maioria não vai, e também achei interessante você ir até lá por gostar tanto de trabalhos feitos à mão, achei o centro histórico bastante charmoso e com certeza me perderia nas frutas secas e sementes, parece tudo tão bom e fresco. Com certeza um lugar a se pensar em visitar!

    • Reply

      projecto100rota

      5 Fevereiro, 2018

      Gostei muito da cidade. Se gosta de frutos secos vai se perder!!!! Hahaha. Um lugar que nos enriquece muito mesmo. Abraço!

  • Reply

    Juliana Moreti

    5 Fevereiro, 2018

    Enquanto lia teu texto, deixei de lado todo conflito existente nesta região e por algum momento até me pareceu um lugar pacífico.. Caminhar pelas suas ruas sem medo de se desnortear e encontrar alguém que te levaria até uma fábrica de sabão, é realmente uma experiência incrível!

    E fiquei muito curiosa com o doce… Adorei tua foto com a fila de machos comendo um docinho
    😁

    • Reply

      projecto100rota

      5 Fevereiro, 2018

      Olá Juliana, e não deixa de ser um lugar pacíico, os políticos é que estragam tudo…O doce é muito bom até porque ali não era demasiado doce, o que para mim é bom !heheh

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    Marcia Picorallo

    6 Fevereiro, 2018

    O que a curiosidade por um sabão pode nos proporcionar! rsrsrsrs Aqui em casa aproveitamos as sobras de óleo de fritura para fazer sabão, mas teria sido mais rico se eu tivesse aprendido do mesmo jeito que você. Parabéns pelo post, viajei junto.

    • Reply

      projecto100rota

      7 Fevereiro, 2018

      É uma óptima ideia a forma como vocês fazem. ,uito bom. Também podem utilizar azeita. Obrigado pelo comentário, boas viagens!

  • Reply

    Adriana Mendonca

    6 Fevereiro, 2018

    Não conhecia esse lugar e posso dizer que fiquei encantada com seu relato! Realmente é curioso saber que sua motivação principal de ir até a ir foi o sabão. Mas o lugar reserva muita história e boas surpresas para quem decide visita-lo. Obrigada por compartilhar sua experiencia!

    • Reply

      projecto100rota

      7 Fevereiro, 2018

      Obrigado eu por me acompanhar e pelas suas palavras, boas viagens!!

  • Reply

    Ana

    7 Fevereiro, 2018

    Gostava de conhecer a Palestina (eu sei que digo isto sobre quase todos os lugares mas é sincero) e gostava de fazer esta viagem quase numa demonstração de solidariedade para com o povo palestiniano. Porém, perante a situação da zona, preciso de coragem para fazer essa viagem. No entanto fiquei honestamente encantada com o que vi neste teu post. Antes de mais pelo que te motivou a ir à cidade, haha! Depois pelas ruas cheias de gente, um cenário de aparente normalidade que não pensei que fosse fácil encontrar. Olhando para este post parece que o conflito israelo-palestiniano não existe. Depois, pela fotografia dos homens a comer o kunafeh, que é simplesmente fantástica. O gosto e paz com que se agarram a comer aquilo é espectacular, haha! Uma experiência fantástica num lugar que raras vezes aparece pelos blogues…

    • Reply

      projecto100rota

      8 Fevereiro, 2018

      Olá Ana, se tens interesse é ir, lembra te que morreram mais pessoas na europa devido a homicidios e etentados do que que por aqui. Além disso existe Gaza, que é como quem diz quando se lembram de andar à “bulhas” fazem no lá. No resto da Palestina tudo o que se passa são coisas pontuais mas muito localizadas, e basicamente “entre eles” isto é, judeus e muçulmanos. Principalmente os palestinianos quandp vêm que ada por lá um turista só falta carregaerm contigo ao colo! Por isso manda te! Obrigado pelo comentário beijinhos.

  • Reply

    Lívia

    8 Fevereiro, 2018

    Que surpresa agradável mesmo! Lindas imagens.
    Também achei fofinha a fila dos homens comendo docinhos kkkkkk
    Obrigado por compartilhar!

    • Reply

      projecto100rota

      8 Fevereiro, 2018

      São fofinhos não são ? hahaha Obrigado e boas viagens!

  • Reply

    Edson Amorina Jr

    8 Fevereiro, 2018

    Que experiência! Adorei conhece essa cidade (que não sabia existir) com vocês e fique com vontade de experimentar o kunafeh

    • Reply

      projecto100rota

      8 Fevereiro, 2018

      Já ficou a conhecer algo connosco hehehe Granda abraço!

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    Leo Vidal

    8 Fevereiro, 2018

    Muito interessante o post. Ia adorar conhecer esses mercados, deve ser de uma riqueza cultural enorme.

    • Reply

      projecto100rota

      8 Fevereiro, 2018

      Muito!! Obrigado pelo comentário. Abraço!

  • Reply

    angela sant anna

    8 Fevereiro, 2018

    realmente não tem como prever nossos caminhos ne, quem diria q vc acabaria visitando uma fabrica de sabao durante a viagem! gosto de experiencias surpresas que nem essa!

    • Reply

      projecto100rota

      9 Fevereiro, 2018

      Verdade, boas viagens guria !! hihihi

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