Médio Oriente, Palestina

Dormir no campo de refugiados de Dheisheh, Belém-Palestina

Pintura numa ruela do campo -cópia de Banksy.

Antes de mais. Aqui na Palestina campo de refugiados não é o que talvez estejam a imaginar, ou pelo menos o que EU imaginava. Não há tendas da ONU por aqui. Não há pré-fabricados. Mas já houve, há muitos, muitos anos.

Não quero falar de política, nem de políticos, nem tampouco de religião e não vou arriscar emitir opinião. Apenas partilhar convosco factos, factos que ocorrem no presente. Só quero falar das pessoas, do povo, das crianças, de quem simplesmente trabalha para viver bem e feliz junto dos seus. Seja lá o que isso for para cada um…

Dormir aqui e conhecer de perto esta realidade era a única coisa que “tinha de fazer” na minha viagem por Israel e Palestina. Mais do que monumentos e sobretudo lugares religiosos meu foco era tentar ver com os meus olhos- e acima de tudo sentir de perto– este conflito milenar que voltou a estar presente nas notícias devido à mais recente decisão do presidente dos EUA. Para isso, havia não uma, mas duas coisas que considerei autenticamente como “missões a cumprir”. 

Dormir num campo de refugiados.

Visitar e pernoitar na cidade de HEBRON, a mais conflituosa depois de Gaza (se é que se pode chamar conflituosa a Gaza)

Arte em Dheisheh-Belém por Banksy

Dormir em Dheisheh-Belém acabou por ser a escolha logisticamente possível e mais lógica.  O campo foi criado em 1949 em resposta à fuga de palestinianos de várias aldeias em redor de Jerusalém e Hebron devido à guerra entre os países árabes e Israel. Está localizado numa das principais estradas de Belém, e foi construído para “provisoriamente” albergar 3000 almas, hoje em dia acolhe cerca de 15000 pessoas em pouco mais de 1/km2. É o segundo maior campo de refugiados no “west bank”, o maior é o de Balata, próximo de Nablus.

Inicialmente tudo era como imaginamos num campo assim. Todos viviam em tendas. Acontece que com o passar dos anos, a população foi crescendo e a situação que seria “provisória” passou a ser provisoriamente definitiva. Ora, os residentes percebendo que ali iriam permanecer largos e bons anos, tentando dar uma maior dignidade às suas vidas começaram naturalmente a construir as suas próprias casas. Depois, pavimentaram-se ruas,fizeram chegar a electricidade e água da rede, e criaram os seus próprios negócios.

Todavia, perto de 20% do campo continua ainda sem ligação a saneamento básico, e com muitos problemas de abastecimento de água e luz.

Vista sobre o campo

Foi inteiramente cercado e isolado no final dos anos 80 após a primeira intifada, ficando apenas uma pequena entrada com torniquete junto da estrada principal.

A cerca entretanto foi retirada assim como o checkpoint, mas apesar de estarmos numa zona designada como “sob controlo total palestiniano” o que não terminou foram as consecutivas incursões das tropas israelitas pelas casas dentro, prendendo e perseguindo supostos criminosos deixando qualquer família viver numa clima permanente de medo e ansiedade. O curioso é que tudo isto se passa debaixo das barbas da ONU. E passou-se debaixo das minhas também..

Por todo o campo são vistas pinturas homenageando e recordando os mártires deste conflito, assim como prisioneiros.

É esta a história muito resumida do sítio onde queria passar dois dias da minha viagem.

MAS HÁ HOTÉIS OU POUSADAS NO CAMPO ?

Mais ou menos… Descobri o IBDAA CULUTURAL CENTER – que tem como missão, “criar uma atmosfera positiva para as crianças, jovens e mulheres do campo, proporcionando-lhes actividades que permitem o desenvolvimento de capacidades criativas e de liderança, nomeadamente através da arte, dança, música e comunicação.

Além de tudo isto, como modo de angariar fundos decidiram estabelecer uma casa de hóspedes, muito bem cuidada, limpa e confortável no próprio edifício do centro, que permite aos hóspedes ter uma interacção directa com a vida do campo. Fiquei uma noite e gostei bastante. Situa-se junto à estrada principal HEBRON-BELÉM ao lado do ONU HEALTH CENTER.

Edifício principal do IBDAA CULTURAL CENTER

Mas há mais…

Acontece que uma família de refugiados decidiu colocar um quarto da sua casa numa plataforma de internet, o AIRBNB. Sim, isso mesmo. E pergunto eu agora- “E porque não” ?

Confesso que NÃO SOU ADMIRADOR E EVITO USAR AIRBNB, mas aqui abri uma excepção. Tratava-se de poder de facto ajudar uma família que por certo economicamente não viverá na maior das facilidades a sua vida. Mas mais que isso poder ter a possibilidade de “espreitar” por dentro a vida no campo.

Assim que o descobri não hesitei e reservei com alguns dias de antecedência, com alguma sorte diga-se, pois já não havia muitos dias disponíveis.

Ibrahim, a sua esposa Aya e os seus 3 filhos- um dos quais com poucas semanas de mundo– tiveram a amabilidade de acolher na sua casa durante uma noite, oferecer-me um delicioso prato de carneiro e partilhar comigo várias vicissitudes da sua vida. No resto, tudo é confortável na casa e inclusive há wi-fi.

Ibrahim fala muito bem inglês e a sua esposa Aya esforça-se por interagir. Não é uma família muçulmana conservadora de todo. No entanto senti-me especialmente privilegiado por me terem aceite, pois por norma a família só aceita mulheres ou casais, sobretudo pelo simples facto de Ibrahim trabalhar por turnos e por vezes nem sequer dormir em casa.

Ibrahim e…eu.

Não era necessário Ibrahim abrir tanto o seu coração e ter feito o esforço que fez para que eu percebesse a sua dor, aliás, não só a sua dor mas também da maioria das famílias que ali habitam. Mas agradeci. Reverenciei. A dor de ter sido expulso da sua aldeia, de ter perdido a casa onde cresceu e brincou em criança, mas também revolta. Revolta por lhe ter sido prometido que voltariam. 

Imaginemos: Somos pessoas trabalhadoras, vivemos aqui há 10,20,1000 anos, não importa. Estamos cá. Os nossos governos entram em guerras. De seguida a tropa bate à porta e diz: “Têm 1 hora para sair DESTA casa”. Deixamos tudo, pois não temos tempo para fazer mais nada. Vamos embora. Para onde vamos ? Os filhos reagem consoante a idade…uns por certo percebem e choram, outros não tendo ainda noção pensam que é brincadeira…

Como suportamos isto ? Como vai ser o amanhã deixa de fazer sentido. É pensar muito a longo prazo. E perguntas como : Como vai ser daqui a 5 min, o que vamos comer logo? será que vamos ter frio? Passam a estar presentes no pensamento.

Foi isto que aconteceu a Ibrahim, à sua família, e seu pai recentemente falecido, que orgulhosamente guarda sua foto na sala.

A linda família de Ibrahim

Ibrahim conta-me também que há cerca de 17 anos- quando ainda era possível aos palestinianos circularem livremente por Israel– voltaram há à aldeia de Zekharia, nos arredores de Jerusalém, hoje Israel. Tinha sido a primeira vez em 50 anos, e a última…

As mesmas portas, as mesmas árvores, as mesmas ruas, o mesmo cheiro… potenciou a emoção do reencontro e partiram de novo, para nunca mais voltar.

A aldeia hoje apesar de ocupada por alguns Judeus, muitas casas permanecem vazias e abandonadas, outras demolidas para se construírem urbanizações, os chamados “colonatos judeus”.

Está na história. É um facto. É simples. Acredito em Ibrahim. Os olhos de algumas pessoas dizem tudo.

Mais uma vez digo, não quero tomar partido de nenhum lado. Apenas sei que esta gente boa foi amputada das suas raízes, só queriam voltar às suas casas. Será o muro o maior dos problemas ?

Pintura no muro em Belém

Foi uma boa experiência de vida para mim acima de tudo. Aprendi muito. Absorvi muita coisa. Guardei para mim muita coisa. Tenho de guardar. Só fiquei com mais dúvidas, e isso é bom. É uma região muito complicada. Foram feitos erros em cima de erros, de todas as partes. Noto muitos palestinianos e israelitas cansados, cansados destas histórias.

TAMBÉM FIQUEI COM A NOÇÃO QUE HÁ MUITOS JUDEUS E ÁRABES QUE SE DÃO BEM, MUITOS TRABALHAM JUNTOS E CONVIVEM BASTANTE, MAS ISSO NÃO APARECE NAS NOTÍCIAS. Será que dará jeito a alguém alimentar este conflito? Mas depois ainda há “GAZA”… Temo que não haja solução. Talvez o tempo. Mas esse tempo não está próximo.

Alguém em Ramallah disse-me:“Precisamos aqui de um Nelson Mandela”.- E eu respondi com uma pergunta:“E será que nos dia de hoje a voz de Nelson Mandela seria ouvida ?“.

Uma viagem que te enche de perguntas, que te preenche de dúvidas é uma grande viagem! Disso eu tenho a certeza.

O quarto na casa de Ibrahim

Faço votos que com este post estimule mais pessoas a visitar este “lado da barricada”. Para conhecer e quiçá reservar a sua estadia na casa de IBRAHIM e AYA clique neste link: AIRBNB EM DHEISHEH-BETHLEHEM 

 

COMO CHEGAR AO CAMPO:

– Está situado a cerca de 3km do centro de Belém. Se gostar de andar a pé e a forma física assim opermitir é uma boa opção. Se não lhe apetecer apanhe um “Táxi service”  e por 3 NIS que é como quem diz 0,80€ levam-no à porta.

ONDE DORMIR:

– O post fala sobre as duas únicas possibilidades de se alojar no CAMPO. Contudo se preferir ficar na turística cidade de Belém tem muitas opções. Poderá reservar através deste link abaixo:

ALOJAMENTOS EM BELÉM-PALESTINA

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19 Comments

  • Reply

    VICTORIA M FARINA

    11 Fevereiro, 2018

    Ual, que experiência incrível e diferente. Amei o post, muito diferente e intrigante. Fiquei super com vontade de visitar a Palestina depois disso!

    • Reply

      projecto100rota

      14 Fevereiro, 2018

      E isso é muito bom ,visite vai ver que vai ser óptimo, boas viagens!

  • Reply

    angela sant anna

    11 Fevereiro, 2018

    deve ser horrivel sair de casa sem poder voltar, acredito que ha um misto de sentimentos de saudades, odio, raiva… muito interessante esse relato, gosto de ler sobre como eh a vida de quem mora no pais e n so a parte turistica

    • Reply

      projecto100rota

      14 Fevereiro, 2018

      Isso mesmo angie ! Valeu! Boas viagens!

  • Reply

    Adriana Mendonca

    11 Fevereiro, 2018

    Que tocante seu post! Quando comecei a ler achei inusitada a ideia de querer dormir num campo de refugiados. Mas tenho certeza que foi uma experiencia inesquecível pra vc, pois só de ler já podemos sentir isso. Existe um mundo que nunca descobriremos se ficarmos apenas nos pontos turísticos de cada lugar né?

    • Reply

      projecto100rota

      14 Fevereiro, 2018

      É isso mesmo que eu acho Adriana, foi mesmo inesquecível. Boas viagens!

  • Reply

    Analuiza

    11 Fevereiro, 2018

    Eu nem sei bem o que comentar. Tipo de experiência que merece uma tarde de muito café e longas conversas. É mesmo uma região complicadíssima. Quem está certo, quem está errado, qual a solução. Fato é: quantas pessoas verdadeiramente sofrem dia a dia com estas e tantas outras questões. Não vejo solução a curto prazo. Tomara eu esteja equivocada. Tomara que este cansaço que você notou faça com que as novas gerações ajam de outra maneira para que a violência no mundo vá diminuindo.

    • Reply

      projecto100rota

      14 Fevereiro, 2018

      Também espero…vencidos pelo cansaço…TODOS, espero…Boas viagens!!

  • Reply

    Ana

    11 Fevereiro, 2018

    Não sei o que escrever. Li todo o texto e não há nada que sinta que devo comentar ou sequer acrescentar – não há nada a dizer. Não escondo que a história de Ibrahim e da sua família me comove, até porque nunca ouvimos falar destas pessoas. O conflito é o centro das atenções e transforma Israel e Palestina quase em entidades abstractas, levando a que muitos se esqueçam que há (demasiadas) histórias como as do Ibrahim por trás do conflito.
    Gostei muito de ler. É a única coisa que posso acrescentar.

    • Reply

      projecto100rota

      14 Fevereiro, 2018

      Ainda bem que gostaste, tocaste no ponto certo…Boas viagens e obrigado pelo comentário 😉

  • Reply

    Flávia Donohoe

    12 Fevereiro, 2018

    deve ser uma experiência e tanto e com certeza fica-se muito a aprender, e isso de não noticiarem tudo o que acontece é bastante recorrente, às vezes vamos a lugares que dizem que é muito violento, mas ao chegar até lá vemos que não é tão ruim assim, às vezes só dizem nas notícias o que acham que dará dinheiro, realmente uma pena!

    • Reply

      projecto100rota

      14 Fevereiro, 2018

      Concordo Flávia, obrigado e boas viagens!

  • Reply

    Fabia Fuzeti

    12 Fevereiro, 2018

    Não consigo imaginar a tristeza dessas pessoas que tiverem que deixar tudo para trás, sem ter escolha. É muito forte…isso de não saber como será o dia seguinte…Deve ser uma experiência transformadora visitar esse lugar. Nos ensina como somos privilegiados. E ainda assim reclamamos tanto de coisas pequenas.

    • Reply

      projecto100rota

      14 Fevereiro, 2018

      Pois é…sinto me priviligiado todos os dias e às vezes é preciso levar uma valente “chapada” de humildade na cara! Boas viagens 😉

  • Reply

    Juliana Moreti

    12 Fevereiro, 2018

    Nao sei bem o que é viver em um paìs/cidade em àrea de conflito, mas apenas ao ler o teu relato sinto um pouco da dor de todas essas famílias! Sair de sua pròpria casa, sem poder levar tudo o que seja seu é muito doloroso.

    • Reply

      projecto100rota

      14 Fevereiro, 2018

      Temos de agradecer por vezes viver em paz…não é mesmo ? Boas viagens!

  • Reply

    sabrina Kelly

    13 Fevereiro, 2018

    Definitivamente esse seu post vai ficar marcado entre aqueles que mais me emocionou nos últimos tempos. Vivemos muitas vezes de um lado para o outro. Viajando, curtindo apenas… sem entender a cultura local, a realidade daqueles que são dali, daquele lugar. As histórias de cada pessoa, de cada momento…
    Parabéns

    • Reply

      projecto100rota

      14 Fevereiro, 2018

      Mais do que ver muitas vezes os monumentos, eu gosto de tentar perceber os lugares, ainda bem que gostou e também fico muito comovido em saber que o meu relato provocou algum tipo de emoção. Obrigado e boas viagens!;-)

  • Reply

    Mariana

    15 Fevereiro, 2018

    Que relato maravilhoso! Muito bom perceber o outro lado da história, um lado mais humano. Não consigo imaginar o sofrimento dessas famílias e como é viver com medo depois de perder as raízes. Parabéns pelo post!

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