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Visitar Méroe | Um património UNESCO só para mim | Sudão

Visitei Méroe vindo de Karima onde pude visitar as minhas primeiras pirâmides no Sudão. Era um sonho já com barbas e acredito que isso tenha feito disparar o nível de expectactivas lá bem para cima.

Cheguei de transporte público, o que aqui significou ficar a pé, em plena estrada principal que liga Khartoum a Atbara debaixo de um calor abrasador…

Ao início fico um pouco assustado com a distância que me separa até ao complexo arqueológico que já se vislumbra no horizonte. Acontece que à medida que me aproximo, -carregando a minha mochila sob uns bons 37/38º– e vendo que estou tão perto de chegar, não haverá nenhum obstáculo que me faça parar.

Sensivelmente a meio do percurso sou abordado por um local que tenta vender os seus serviços acompanhado do seu camelo, mas recuso. Insiste, sem ser chato.

Já perto das instalações de entrada vejo meia dúzia de bancas com artigos para visitantes. Não passam de pequenas velharias e pequenas pedras de arenito esculpidas em forma piamidal ou animais.

Ninguém me pressiona a comprar nada. Comigo o vendedor que melhor se safa é aquele que não me impinge nada, penso imediatamente que no final irei comprar algo para ajudar esta gente que tanto precisa.

Artesanato de Méroe

Não tenho planos nenhuns para este dia. Não sei onde vou almoçar, não sei onde vou dormir. Estou determinado a “deixar acontecer”.

Já no local onde se adquire o bilhete atende-me uma simpática senhora, que ouve música no seu velho rádio a pilhas. Ao lado um homem descansa numa cama…É este o cenário. Fazem-me as habituais perguntas! De onde sou, porque estou sozinho, onde vou dormir. Respondo a tudo, excepto ao “onde vou dormir”, digo que vou dormir ali mesmo. sorri e diz que não posso, é um lugar do governo. O meu “sexto sentido” de viajante diz-me que é possível.

Para já deixo-me estar a descansar depois de chegar a um bom preço para visitar Méroe. Sim, ainda dá para regatear o preço do bilhete, mas pouco.

Dão-me água, bolachas e dizem-me para esperar até ao final do dia para finalmente tocar as pirâmides, concordo, e digo que até é melhor para tirar fotografias. Ainda assim, sou teimoso e decido ir fazer uma pequena prospecção.

Estou “sozinhão da silva”. Minto! Logo após a entrada um grupo de trabalhadores sudaneses, fazem algo parecido com tirar areia de umas escadas de acesso às pirâmides…no deserto.

 

Desejo-lhes boa sorte e prossigo. O calor é forte! Depois de umas centenas de passos volto para trás. Vou aguardar pelo final do dia e contemplar Méroe. 

Antes de sair do complexo, deitar o corpo no chão, e depois na cama “pública” da “bilheteira”, sou de novo convidado a dar uma voltinha de camelo, sem pressionar, recuso, mas não sem antes, lhe dar uma gorjeta. Ganhei um amigo.

                                                                 Aguardando o pôr do sol para ver Meroe

Entretanto um barulho continuo perturba o meu descanso. Decido ir ver o que se passa. Lá fora, duas crianças raspam pedrinhas que apanham do chão e fazem artigos para colocar à venda aos eventuais turistas que por ali apareçam…muito eventuais.

A escola ? Os pais ? Onde vivem ? O mais velho solta umas boas palavras em inglês e percebo que passam a maior parte dos seus dias ali. Dizem-me que vão à escola, de vez em quando…

Muda de conversa e começa a explicar-me como fazem as mini-pirâmides. A forma ternurenta, meiga e tranquila com que me fala deixa-me emocionado, mas não o demonstro. Sei que o sentimento é reforçado devido às saudades  que já dão sinais de vida. Ao invés de voltar, opto por permanecer junto deles, escuto e aprecio o seu dedicado trabalho até ao fim do dia.

 FINALMENTE CHEGOU A HORA DE VISITAR AS PIRÂMIDES DE MEROE

Sim, um dos momentos mais aguardados na minha viagem. Há sempre o risco das expectativas serem demasiado altas e depois não haver correspondência -falo um pouco também acerca disso no meu post sobre Petra, na Jordânia- mais uma vez não saio defraudado nesta minha demanda. O lugar é incrível. O entorno. A luz. A cor das areias, das rochas…

Sinto-me uma autêntica criança, subo e desço dunas, tropeço nas rochas, esqueço-me de completamente de ter alguma atenção com a possibilidade de existirem alguns bichinhos que me possam dar uma mordiscadela, procuro os melhores enquadramentos, quero registar o momento o melhor possível.

Entro e saio das pirâmides. Estou sozinho, já vos disse ? Tomo nota do trabalho menos positivo (na minha leiga opinião) de recuperação feito nalgumas pirâmides, além do exagero o uso de materiais menos apropriados, como placas feitas numa pedra semelhante ao mármore, com referências a autores e financiadores do projecto “estampadas” nas paredes. Não me pareceu correcto.

O sol é o meu guia e é também o meu guarda. Subo uma pequena colina de onde considero ter uma boa visão sobre o complexo e por aí me fico. Há silêncio profundo, apenas interrompido por  estranhas e fortes rajadas de vento quente. As pirâmides alinham-se à minha direita, imagino como será nascer do sol que aqui surge de frente esbatendo-se nas estruturas.

Subitamente começo a ouvir vozes. Crianças, muitas, ao longe. Está praticamente de noite…Vou ao encontro delas e vejo-as junto da entrada. Penso que é uma excursão escolar, trouxeram-nas um mini autocarro . Mas não é.

São “apenas” uma família. Uma família ? Uau… Penso. Primos, primas, tios, irmãos, filhos, muitos! Dão-me água, comida e sento-me mesmo junto das mulheres que me apercebo terem muita vontade em conversar comigo.

Fica escuro como breu e continuam por ali. Perguntam-me onde vou ficar esta noite. Riem-se quando digo que se calhar fico por ali pois tenho saco-cama. Chamam um homem que suponho ser conhecido e compreendo imediatamente que as simpáticas senhoras sudanesas estão a “tomar conta de mim”, como um filho. Dizem-lhe que preciso de casa e… eventualmente um banho.

Acordo fechado. Estou dentro do miniautocarro com a criançada toda. Não sei bem para onde vou, mas vou. Não ando mais que 4/5km e estou de volta à estrada onde iniciei esta minha aventura por Méroe. O meu anfitrião diz-me para sair, as crianças dizem-me adeus e cantam uma música…não entendo o que dizem mas deve ser fixe.

Caminhamos mais uns bons 5km em plena escuridão, apenas vislumbro silhuetas de arbustos e uma ou outra luz lá bem ao fundo. Não tenho receio mas fico pensativo, principalmente porque tenho a mochila às costas e começa a pesar.

Paramos, vejo uma pequena casa, sem luz sem água, apenas quatro paredes em adobe com telhado em colmo e duas camas no seu interior. É ali que vou ficar, uma espécie de quarto de hóspedes lá do sítio. Diz-me que não é a primeira vez que recebe pessoas assim. Pergunta-me se prefiro dormir na rua pois está calor, digo que sim. Pergunto-lhe sobre cobras, mosquitos…diz-me para ficar à vontade, cobras só junto das pirâmides e os mosquitos hoje estavam de folga.

Colocámos então a cama lá fora, sou eu e as estrelas, o som das cabras, um ou outro burro, um camelo…Bebemos chá, pergunto se é possível tomar um banho, sim é. Foi de mangueira, muito bom, soube que nem “ginjas”. Sinto me agora fresquinho, deito-me a olhar para o céu. Quero eternizar o momento… Isto também “foi Méroe”.

 

O QUE FOI MÉROE:

Descrição retirada do site UNESCO:

“Situado entre o rio Nilo e Atbara, Meroe foi o coração do reino Kush, uma grande potência entre o século VIII a.C até ao século IV d.C. Foi sede do poder que ocupou o Egipto durante quase um século e contém além de pirâmides e templos, instalações de gestão de água. Esta grandioso império, extendeu-se desde o Mediterrâneo até ao centro de África proporcionando assim um intercâmbio de artes, estilos arquitectónicos, religião e idiomas.”


Méroe, é “tão só” um lugar um pouco mais conhecido de um vasto império que ainda tem muitos segredos por contar. Pelo menos fiquei com essa ideia. Já neste século têm sido encontradas estátuas –como a grande estátua do rei Taharqa (690 a 664 a.C., XXV dinastia ou dinastia etíope), , exposta no Museu nacional do Sudão em Khartoum- e outros artefactos muito relevantes para desvendar um pouco mais do que foi esta civilização.

É verdade que estes túmulos em forma de pirâmide, não têm a imponência das do Egipto, mas acho que não devemos comparar coisas não comparáveis. Também se diz muitas vezes que as pirâmides de Meroe são mais antigas, o que não corresponde à realidade.

Para mim o lugar é imponente pela simplicidade, até pela ausência de “mundo ocidental” por ali. O quadro, a pintura está quase intacto no seu todo, e isso ainda é um privilégio.

 

COMO CHEGAR A MÉROE:

ATENÇÃO: não confundir com Merowe que fica perto de Karima. 

Fica situado a 4/5km da estrada que liga Khartoum a Atbara, a pouco mais de 200km da capital. Daí, por transporte público terá de seguir para Shendi e depois sim, de Shendi para Meroe que fica a cerca de 5okm. Há tours ida e volta desde a capital, basta para isso contactar o seu hotel.

Para quem vem de norte como eu, o percurso de transporte público é Karima-Atbara-(Shendi), sendo que tem de avisar o motorista que quer sair  em Meroe.

Há um hotel em forma de tendas a escassos quilómetros do complexo gerido por uma empresa italiana que tem muito boas condições. Como trabalham essencialmente com grupos decidi não ficar por lá e ter uma experiência mais improvisada. O preço rondará os 1000SDG, cerca de 35€.

 

PS- Um agrade cimento especial à minha amiga Isabel Silva pela colaboração na elaboração deste texto!!

One Comments

  • Reply

    Filipe Morato Gomes

    9 Junho, 2018

    Grande experiência, parabéns!!! Estou mesmo a ver que o Sudão te conquistou :)) Grande abraço desde Sighisoara.

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