Médio Oriente, Palestina

HEBRON-Uma conflituosa cidade | Palestina

A cidade de Hebron situa-se bem no centro da Palestina, e depois de “Gaza” é por certo o palco principal onde as diferentes personagens deste conflito mais têm “prazer” em actuar. Ainda há poucos meses (meados de 2017) a UNESCO decidiu incluí-la na lista de património mundial. Considerou-a como parte da Palestina. Israel não gostou e contestou.

Visitei Hebron e fiquei mesmo uma noite vindo directamente de Nablus no norte da Palestina, ao contrário da maioria que o faz em meio dia vindo de Belém.

A cidade está divida em duas zonas. Uma que está sob controlo total da Autoridade Palestiniana e a população é palestiniana (mas este controlo total é relativo) e outra sob controlo total das IDF-Forças defensivas de Israel em que a população são os colonos judeus, e umas dezenas de palestinianos.

É a única cidade na Palestina em que há “colonatos judeus” mesmo no centro. 

Para entender um pouco isto há que saber alguns factos:

  • É uma das mais antigas cidades da região.
  • Os Judeus habitam a região há mais de mil anos.
  • Os muçulmanos chegaram aqui há cerca de 7 séculos.
  • O túmulo dos patriarcas e a mesquita de Ibrahim são no mesmo edifício. Túmulo dos patriarcas é o nome dado pelos judeus ao monumento – embora na tradição islâmica se reconheça também que aqui estão os túmulos dos grandes profetas- e mesquita de Ibrahim pelos muçulmanos. Os Túmulos, muito importantes para ambas as religiões pertencem a: Abraão ou Ibrahim/Isaac/ Jacob e suas esposas , e supostamente Adão e Eva. A sinagoga e mesquita assim como parte do túmulo de Abraão/Ibrahim estão divididos ao meio por vidros à prova de bala.
  • Por causa da associação com os profetas Abrahm, Isaac e Jacob é uma das quatro cidades sagradas dos judeus.
  • Na tradição Islâmica, devido à referência a Ibrahim como fundador do monoteísmo, e um dos profetas que mais atenção recebe no alcorão, é a quarta cidade mais importante depois de: Mecca, Medina e Jerusalém.
  • No início do séc XIX o número de judeus residentes era muito reduzido e o centro da cidade era sobretudo muçulmano. Contudo com o surgimento do movimento sionista a tensão reapareceu, e em 1929 os muçulmanos mataram perto de 70 judeus.
  • Em 1994 um judeu emigrado nos EUA regressou à “Terra Santa” e abriu fogo sobre os muçulmanos que rezavam na mesquita, matando 29 e ferindo mais de uma centena. O indivíduo é idolatrado ainda hoje por muitos judeus de Hebron.
  • Depois da Guerra dos 6 dias mais precisamente em 1967 Hebron voltou a estar sob o controlo israelita e começaram então a ser construídos colonatos judeus e desapropriadas casas aos palestinianos residentes, na própria “cidade velha”.

Por tudo o que este local representa, e pelos recentes acontecimentos um nervoso miudinho apoderou-se de mim à medida que me ia aproximando do centro da cidade. Tinha sido avisado apenas para ter algum cuidado se passeasse pela cidade à noite e evitar aglomerados de pessoas.

O táxi partilhado deixou-me na parte nova que é totalmente árabe e não me apercebi imediatamente do grau de separatismo e tensão que paira no ar. Adiante.

Avistei então indicações da cidade velha e por sua vez  do Túmulo dos patriarcas/Mesquita de Ibrahim –de que vos falei acima– Pelo caminho passei por um aglomerado de pessoas que saíam de uma nova mesquita e lembrei-me então que era sexta feira.

Cheguei entretanto à cidade velha. Foi desolador. Ali, onde outrora as ruas fervilhavam de cor, alegria e gente nas compras, está agora praticamente vazio. Apenas alguns resistentes comerciantes teimam em contrariar o inevitável.

Velho souk de Hebron

Palestiniano à espera de clientes no souk de Hebron

Chegando então às imediações da mesquita/sinagoga  são as forças de defesa israelitas  quem controlam toda a área. Para aceder ao espaço há que passar por um checkpoint em plena rua da “old city, e depois pela segurança já na área do monumento seja na parte muçulmana ou judaica.

Checkpoint” na cidade velha

Um dos edifícios mais policiados do mundo, Túmulo dos patriarcas ou Mesquita de Ibrahim

É possível visitar os dois espaços, desde que não seja muçulmano e queira visitar a sinagoga e o inverso, ou seja, judeu e pretender visitar a mesquita…

No dia em que cheguei visitei apenas a sinagoga, pois como era sexta a mesquita estava fechada a não-muçulmanos. Foi aí que decidi imediatamente pernoitar na cidade.

Talvez por não estar habituado a ver demonstrações de fé judaicas, impressionou-me sobretudo a sinagoga. Não pelo edifício em si mas sim a forma como os judeus fazem as suas orações. A intensidade com que o fazem. A emoção. Os movimentos.

Família judaica junto do túmulo de Abraão

Não permaneci muito tempo. Respeito imenso mas incomoda-me. Incomoda-me a forma como as pessoas se entregam e expõe a algo divino. Mas isso é válido para mim tanto aqui em Hebron, em Mecaquando vejo as imagens na televisão- no “western wall” em Jerusalém ou em Fátima no meu país.

À saída para desanuviar e descarregar um pouco a minha tensão e vendo que metade dos militares que ali estavam eram mulheres –que são todos jovens entre os 18-23 anos– veio à tona o meu lado tuga mais primitivo.

Espontaneamente pus-me à conversa com as “meninas” e “meninos”  das forças defensivas de Israel. Disse que as “meninas” eram todas muito bonitas, e que os “meninos” tinham todos muita sorte em ter colegas assim. Não foi inocente. Quis “apalpar terreno”.

Afinal não passam de miúdos a quem lhes é colocada uma arma na mão. Todos em Israel são obrigados a cumprir o serviço militar, os rapazes durante 3 anos e as raparigas durante 2. Vêm-se por todo o país jovens de metralhadora nas estações de comboio, autocarro…ou simplesmente na rua porque sim, todos têm o direito a usar,  mesmo à civil e fora de serviço. Isso sim assustava-me.

Perguntaram-me de onde era, QUAL A MINHA RELIGIÃO. Eu disse que era cristão até ter visitado Israel, e que agora não acreditava em nada, só na possível bondade do ser humano, na prática de bons actos (seja lá o que isso representa para cada um…) riram-se e disseram obrigado, não me deram muita confiança. Ainda bem. E fui embora.

As IDF-Forças defensivas de Israel. A tropa israelita, aqui em Jerusalém

 Foi também muito estranho ser abordado várias vezes, e ao invés de te perguntarem o nome, fazerem questões acerca da tua religião. Pode ser compreensível. Para mim, não é. Para mim além de estranho é bizarro. Não existimos como pessoas antes ainda de eventualmente confessarmos uma religião ?

Seja como for não havia vagar para a barriguinha para grandes reflexões filosóficas. daqui parti para o almoço. Como nesta zona do monumento não existe comércio teria de voltar à zona árabe para comer algo. Para lá chegar temos dois caminhos.

1º Voltar a passar o “checkpoint”  e caminhar sempre na parte árabe a Norte.

2º Seguir em direcção a Sul passar por outro “checkpoint” mas na parte judaica, e entrar na rua mais famosa da cidade, a King David Street ou Al-Shuhada street -consoante a religião- que é pouco mais que uma simples de 800m praticamente deserta. Isto agora, porque antes a Al-Shuhada street ou King David street -para os judeus- era uma das vias principais de comércio e acesso de Hebron. Está interdita aos Palestinianos desde a segunda intifada.

Optei desta vez pela 2ª hipótese. E entrei noutro mundo. É a versão judaica da história. Pela rua são constantes as referências aos acontecimentos que marcaram a expulsão de judeus no passado. Além de umas poucas dezenas de judeus que aqui vivem, é onde está também o quartel da tropa. Não obstante, vivem aqui ainda alguns palestinianos, cada vez menos, talvez cheguem os dedos de uma mão para os contabilizar, e onde alguns vivem fazem questão de colocar a bandeira e a estrela de David.

Indicações em hebraico na King David street

 

São quase rotineiras as manifestações de palestinianos, um dos argumentos é a reabertura da rua. Por norma acontecem à sexta e eu acertei em cheio!

Precisamente quando chego ao final da rua começo a ver alguns jornalistas vestidos com coletes à prova de bala e capacetes de guerra. Não me desconcentrei. O estômago precisava de alimento. Segui meu caminho e enchi o de um bom e barato falaffel. O espectáculo veio a seguir.

Entrada/saída Oeste da rua.

Tranquilamente pergunto ao senhor do estabelecimento onde almocei sobre o que se passava ou o que se ia passar afinal.  Disse-me como se nada fosse que era mais uma manifestação”Perguntei-lhe se poderia estar por ali. Disse-me que era melhor recolher-me numa das ruelas da “old city” e aguardar como evoluíam as coisas. Acrescentou que na maior parte das vezes acaba com  pedras e paus atirados de um lado e gás lacrimogéneo e balas de borracha do outro…se nada mais grave se passasse.

Decidi então seguir o conselho mas ficar numa posição que desse para ver alguma coisa. Aguardei. Estava na parte árabe. Senti me sempre mais bem enquadrado aqui. Subitamente começo a ouvir vozes de protesto. Ao longe avisto algo parecido com bandeiras a esvoaçar. É a manifestação que está a chegar. Hesito em usar da câmara.

Decido permanecer mais atento do que desatar a armar-me em repórter de guerra, até que repentinamente ao longe oiço os passos de uma correria desenfreada da tropa israelita na minha direcção. Mantive sangue frio, e exactamente aqui decido sacar da máquina para captar o momento.

Tropa israelita indo de encontro à manifestação

Nem tudo o que parece é. A meu lado um lojista estava pacificamente a arrumar o seu negócio, viu que tinha ficado um pouco preocupado e acalmou-me dizendo que era só “show off” e que não passava de “demonstração de poder.” 

Ainda assim estranhei o facto de que se era algo comum acontecer, para quê aquela correria ? Algo de mais grave se teria passado ?Não sei. Até hoje não sei, e não tive conhecimento de factos mais graves ocorridos nesse dia. Ouvi alguns disparos, que creio terem sido para o ar e muitas pessoas a correr em várias direcções. No fundo a tropa estava a tentar dispersar a manifestação.

Segui caminhando em direcção à cidade velha onde nada se passava, ouvia só de vez em quando ao longe e a um ritmo incerto disparos.

Sentia-me cansado, estava algum frio mas ao sol aquecia bem por isso pensei em deitar-me um pouco no jardim do Túmulo dos patriarcas, e FOI A TARDE SOALHEIRA MAIS SURREAL QUE TIVE ATÉ HOJE.

Enquanto este casal de judeus carinhosamente brincava com o seu bebé, ao fundo, na cidade e após alguma acalmia, os tiros de rajada e uma ou outra explosão entravam em crescendo compasso a compasso, preenchendo a partitura da banda sonora deste filme surreal, (só que real).

Para mim que vivo num país como Portugal, e apesar de ter passado por alguns dissabores na vida, isto ultrapassa tudo o que tinha vivido até hoje. Em directo aprendi muito sobre a humanidade. O que somos. O que queremos. Para onde queremos ir. Não são propriamente coisas boas, mas isso é o mundo. O mundo não é cor de rosa. Mas para dar mais valor ao que é cor de rosa temos talvez de ver as outras cores, cores tristes, cores duras, fechadas. Aqui lembrei me muitas vezes o quão bom é o nosso país. Mas efémero contudo. Não se é bonzinho porque se é português ou chinês. Somos bonzinhos até que… Tudo é efémero. Até a paz.

 

 

A noite foi “atarefada” por lá mas tudo se passou bem. Nada de anormal dentro da anormalidade. Nos “entretantos” desta surreal, só que real tarde, passei noutras zonas onde não tinha passado e vi com os meus olhos o lixo que os “colonos judeus” supostamente atiram para cima das zonas palestinianas.

No dia seguinte visitei o lado muçulmano do Túmulo dos patriarcas ou seja a mesquita de Ibrahim onde ocorreu o massacre de 1994. Tendo alguma dificuldade me perceber a quem pertenciam os respectivos túmulos, limitei-me a tirar umas fotografias e saí.

Interior da Mesquita de Ibrahim

Muitos sentimentos mistos, muitos pensamentos acompanharam as minhas passadas até sair desta cidade. Ninguém quer ceder, depois quando o assunto até está adormecido alguém da esfera política lembra-se e…pumba, volta o tema à baila e aos “canhões”. Não por aqui claro, aqui apesar destas escaramuças comparado com o que se passa em GAZA “são peanuts”, é coisa para meninos.

Há solução? Não há. Depois lembro-me que a malta nova é que vai um dia botar termo a isto. Mas como? Será que é possível crescendo no meio disto? É verdade que há muitos israelitas judeus que são colegas e amigos de palestinianos muçulmanos e isso não passa nas TV’S. Mas será suficiente? Duvido. E isso comprovei-o mais à frente na viagem em…Telavive.

Ruas fechadas, imagem de marca de Hebron

Ainda bem que visitei Hebron, foi muito importante para mim. Apesar de não ter achado uma cidade perigosa, também não posso afirmar que é 100% segura. Há alguns passos que se têm de dar com cuidado e há que ter respeito pelas regras. Por conseguinte, o que muita gente faz é visitar Hebron numa manhã ou tarde avaliando previamente com os locais como está a situação.

Keep calm…isto é viajar!! Boas viagens!

COMO CHEGAR:

-Hebron é facilmente visitável através de JERUSALÉM (+-40KM) e de BELÉM (+-20KM). Eu fui de táxi partilhado “service” palestiniano desde Belém. Se não quiser ir de forma independente há alguns hotéis em JERUSALÉM e BELÉM que disponibilizam “tours”.

 

ONDE DORMIR:

-Sim, Hebron tem hotéis, eu não fiquei a dormir em nenhum. Fiquei mesmo no centro na casa de um palestiniano. Não aconselho porque as condições não eram as melhores, além de que nunca se sabe o que pode o exército israelita fazer. Fique num hotel. Se pretender hotel clique no link abaixo:

ALOJAMENTOS EM HEBRON

Faça as suas reservas através das parcerias do nosso blogue. VOCÊ NÃO PAGA MAIS, e nós ganhamos uma pequena comissão. Assim conseguiremos manter e até melhorar ainda mais o nosso blog ! OBRIGADO !

 

 

8 Comments

  • Reply

    Tina Wells

    17 Fevereiro, 2018

    É realmente surreal esse confronto que não acaba nunca, por causa de religião! Estive há anos em Israel, mas só Tel Aviv e Jerusalém, quando trabalhava ccomo jornalista, cobrindo eleições. Senti essa coisa da segurança sem segurança e também me assustei com os soldados tão jovens! Belo relato!

  • Reply

    Analuiza

    17 Fevereiro, 2018

    “(…) a forma como os judeus fazem as suas orações. A intensidade com que o fazem. A emoção. Os movimentos.” – Acho que isso diz muito sobre o conflito na região. Há paixão demais e tolerância, compreensão de menos. Pouca, ou nenhuma, racionalidade. Assim como você, tenho dificuldades em entender como no que eu acredito em termos religiosos faz de mim melhor ou pior que o outro a ponto de desencadear ódios extremos.

    Contudo, acho que há algo mais além de religião. Questões políticas. Poder… Observo, mas não conheço a fundo.

    Em minha juventude, conheci uma menina que estava prestes a começar o serviço militar em Israel. Aquilo me marcou tanto! Eram tempos sem conectividade e eu sabia ainda menos do mundo do que sei hoje.

    O mundo está longe de ser cor de rosa. Sei bem. Vivo num país de grande violência e problemas gravíssimos, mas ainda assim, não tenho noção do que seria viver em uma cidade como Hebron.

    Narrativa sensacional! Levou-me contigo por fatos, sensações e percepções. E me deu muitos elementos a pensar.

    Uma pergunta: depois de ter vivido tais experiências, ainda tens fé na humanidade?!

  • Reply

    Lid Costa

    17 Fevereiro, 2018

    Apesar de todo o confronto religioso que cerca a área, Hebron parece ser uma cidade muito interessante, cheia de cultura. Achei as fotos do post bem legais! Parabéns.

  • Reply

    Adrielle Saldanha

    18 Fevereiro, 2018

    Nossa, deve ser bem tenso visitar essa cidade, embora seja bem interessante para sentir como a população vive. O mundo poderia ser menos complicado se não houvessem esses conflitos ne

  • Reply

    Luciana Rodrigues

    18 Fevereiro, 2018

    Quando atravessei a fronteira do Egito para Israel, toda a segurança era feita por essas jovens policiais com fuzis. Fiquei com mais medo do controle na fronteira do que de algum provavável ataque terrorista no Egito. Seu relato foi muito enriquecedor! Obrigada por compartilhar tal experiência.

  • Reply

    Sabrina Gomes

    18 Fevereiro, 2018

    Acho que vale muito a experiência sabe? Ao mesmo tempo que tenho vontade confesso que tenho medo. As vezes sinto que é tudo ao mesmo tempo seguro e instável sabe? Parece que há uma guerra silenciosa e ao mesmo tempo muita paixão por aquilo que acreditam. Cada um no seu espaço. Achei bem engraçado também mulheres armadas e sorrindo. Uma postura diferente do que normalmente vemos né?
    Adorei as fotos. Parabéns e excelente texto.

  • Reply

    ADRIANA MAGALHAES ALVES DE MELO

    19 Fevereiro, 2018

    Nossa, você realmente é corajoso. Que relato incrível. Eu ficaria com um medo enoooorme, e olhe que moro no Brasil, hein? E você ainda por cima escolheu ficar na casa de um morador? Loucura!

  • Reply

    Juliana Moreti

    19 Fevereiro, 2018

    Eu certamente não teria a coragem que você teve, mas imagino a emoção que é estar nessas terras.
    Acho que eu tbem me assustaria com jovens armados e com a religião acima do ser humano. Certamente não me sentiria confortável (até porque, não tenho religião) se me questionassem mais minha religião do que quem eu sou e de onde venho

Deixe uma resposta