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VIAJAR NO SUDÃO | Uma INESPERADA história de amor | SUDÃO

Este é um post diferente. Não vos vou falar directamente de um lugar, mas sobre alguém. A foto acima remete-me sempre para o dia em que conheci “Fatima”. Uma jovem Sudanesa que comigo partilhou uma inesperada história, num país ainda tão conservador que é o Sudão.

Tudo começou numa simples visita a um Museu perto da cidade de Kerma. Uma brutal coincidência fez-me dar de caras com um sudanês que me acompanhou desde Aswan no Egipto até Wadi Halfa no SudãoEste homem -à minha esquerda na foto- falava muito bem inglês, definia-se como um empreendedor, e era uma espécie de auxiliar numa escola nos arredores de Dongola.

O meu companheiro aqui à minha esquerda

Claro está que fui logo convidado a seguir viagem depois da visita de estudo ao Museu, para seguir com a excursão de estudantes no regresso até à escola. Aceitei de bom grado. Não tinha planos, não tinha nada reservado, portanto, porque não?

Sem saber o que me esperava passado sensivelmente 1 hora chegamos à escola de DONGOLA. Os miúdos vão para casa mas os professores e “outros” por ali permanecem a fazer não sei bem o quê. Mas estou em África algo há-de suceder, alguém há-de me perguntar onde irei dormir, alguém haverá de tomar conta de mim.

Enquanto aguardo serenamente sozinho sentado no átrio do estabelecimento a contemplar o momento, e depois de me oferecerem lanche -pão e queijo de cabra com falaffel, uma moça sudanesa completamente tapada com abaya, hijab e niqab discretamente chega junto de mim e pede o meu número de telefone.

Apesar de algo surpreendido, devido a ter alguma tarimba em viajar por países muçulmanos, não me fez ficar boquiaberto e deslumbrado. Afinal o “engate” é universal, só muda a forma consoante o contexto, isto é como quem diz as “possibilidades de execução”.

Como sou um homem sério, aproveitei a deixa e disse logo que era casado e pai de filhos. A última coisa que queria era botar-me em esquemas, ainda assim não esmoreceu e obedeci ao requisitado.

Números trocados e gravados, lá fui embora com o meu amigo à procura de um sítio para pernoitar. Não pensei em mais nada até receber à noite, e já instalado –no pior hotel onde estive no Sudão– uma mensagem de Fatima através do “WhatsApp”, com o seguinte teor:

“Olá, muito prazer em conhecer-te e estou muito feliz por poder falar contigo”– pensei…”Oh meu Deus isto afinal é mais sério do que julgava…”

-“Obrigado, igualmente. Em que posso ajudar ?

-“Eu e a minha namorada gostávamos muito de falar contigo”- Desta vez não pensei muito, respondi:

-“Namorada ? Ou namorado ? Mas tu és uma rapariga ou um rapaz ?- Amigos, peço desculpa pela minha resposta, mas foi espontânea e sem nenhum requinte de malvadez escondido.

“Sou rapariga, e sim, tenho namoradA, e amo-a” Aí a coisa começou a ficar bem séria na minha cabeça.

-“Ok, ok mas aqui no Sudão nem sequer é permitido namorar, como consegues ter uma namoradA, não é perigoso?Mas obrigado por confiares e partilhares esse teu sentimento comigo, só espero que vocês consigam ser felizes”

NOS ENTRETANTOS DAS MENSAGENS E IMEDIATAMENTE A SEGUIR  FEZ-SE LUZ NO MEU CÉREBRO. OBVIAMENTE “FATIMA” ESTARIA A CONTAR E A PARTILHAR ISTO COMIGO PORQUE QUIÇA SERIA EU A  ÚNICA PESSOA, OU SEREI AINDA, QUE A FEZ TER CORAGEM PARA CONTAR O QUE SENTE NUM PAÍS EM QUE O HOMOSSEXUALISMO AINDA É PUNIDO COM PENA DE MORTE. E DEPOIS CONTINUOU:

“Quando vais embora de DONGOLA? Posso ver-te mais uma vez e falar contigo?

-“Sim claro, vou embora amanhã, podes ajudar-me a apanhar o transporte”.

Meus caros, no dia seguinte “FATIMA” à hora combinada encontrou-se comigo. Ou melhor, a uns metros de mim.

Imaginem a cena: um turista tuga no meio de um mercado no Sudão rodeado de homens de barba rija, carnes penduradas, bancas de frutas e afins, a falar pelo WhatsApp com uma Sudanesa perdida de amores por alguém do mesmo sexo. Já pensaram que só por alguém ler as mensagens e denunciá-la ela poderia ser acusada de um crime e condenada à morte?

Percebi imediatamente que “FATIMA” estava a tentar ter precaução ao não vir directamente para junto de mim. Estava do outro lado da estrada mas ao fim de algumas mensagens aproximou-se. Lado a lado continuávamos a trocar mensagens, sobretudo de agradecimento por “apenas” ter paciência em ouvir a sua história. Perguntei-lhe pela namorada mas “FATIMA” apenas disse que não poderia estar ali aquela hora, mostrando-me apenas depois algumas fotos no telemóvel. Não vos escondo um algo que pensei imediatamente, como “pôr em prática” o seu amor? Fácil. “FATIMA” e a sua namorada são companheiras de quarto na escola superior que frequentam.

Posto isto e devaneios à parte,embarcámos os dois num TUK-TUK a caminho do local onde eu apanharia o transporte para o próximo destino. Durante o curto percurso “FATIMA” chora, chora mas muito discretamente, e envia uma mensagem a dizer que se sente muito aliviada e que só pretende “poder falar comigo sempre que quiser de futuro, que tem menos um grande peso nas costas e uma pequenina luz de esperança”.

Aqui sim, tomo consciência de facto daquilo que estava realmente a fazer e do grau de importância, e impacto que aquilo tive na pessoa.

Despedi-me acenando. “FATIMA” insiste e paga-me o TUK-TUK . Reparo que levanta o lenço (niqab) mais uma vez e limpa as lágrimas. Eu fico por ali sentado no passeio, como que bloqueado a absorver tudo aquilo. Não há muito mais que possa dizer, provavelmente tornar-se ia redundante.

PARA FECHAR A HISTÓRIA CONFESSO-VOS QUE O QUE EU MAIS PENSAVA NAQUELE MOMENTO –ALÉM DE PARTILHAR O SUFOCO DE FATIMA DO QUE SERÁ VIVER NAQUELA AGONIA E SEGREDO– só desejava que muitas pessoas que conheço estivessem ali comigo. Seria um balde de água fria nos seus preconceitos.

Como já muito foi escrito e falado, na minha opinião, muitas tradições e culturas têm o seu próprio timing evolutivo (seja lá o que isso for). Mas seja no Sudão ou seja nos E.U.A o que é que o mais comum dos mortais quer da sua vida? Não quererão de uma forma geral algo semelhante? Ou só porque nasço com sangue azul ou preto, sou terrorista, assassino ou maluco?

Há ainda montanhas de preconceitos a serem derrubados, mas durante alguns anos mais recentes senti que algumas já estavam caídas por terra. Acontece que o ser-humano é por vezes uma caixinha de surpresas e começo a achar que estava enganado. Por vezes cansa um pouco ouvir sempre coisas como: “Qualquer dia ficas como eles”-“Não tens medo?”-“Andas por lá…no meio dos Talibãs, qualquer dia fazem-te a folha…”

Ou então, mais grave quando um gerente bancário, meu conhecido, pessoa com ensino superior e formação me diz olhos nos olhos que; “achava que geneticamente aquela gente tem tendência para a violência e para o terrorismo”. Fervi por dentro e segurei-me.

Cansa e por isso já nem argumento quando vejo que não vale a pena.

Por estes sinais directos e outros indirectos sinto que o nacionalismo, a diferença, o rótulo, a marca, a cor…tudo volta a emergir. Ou será que as coisas se estarão a inverter?

Apesar de ser um pragmático e mesmo céptico em relação à humanidade resta-me alguma esperança. Não me parece que FATIMA vá a tempo de cumprir o seu sonho. Mas daqui a 20,30,40,50 anos muito mais FATIMA’S haverá e aí poderá ser que tenha valido muito a pena esta história, E O AMOR VENÇA, APENAS O AMOR.

BOAS VIAGENS!!!

 

 

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